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Coluna – Saudade de Wander Piroli

Foi o amigo jornalista Ricardo Eugênio enviar mensagem de amizade no âmbito do Facebook para disparar uma avalanche de recordações da nossa vivência na década de 70, em Belo Horizonte. De cara bateu saudade enorme do editor de Polícia do jornal Estado de Minas, o jornalista e escritor Wander Piroli (1931-2006).

Nem sei mais quanto tempo não tinha notícia de Ricardo. A vida parece ser feita de caixinhas sobrepostas. Sempre que se bate com o condão, ao pronunciar a palavra mágica, abre-se a caixinha correspondente e então as recordações vêm. Foi o caso da mensagem do ex-colega de redação, numa época em que nós brasileiros vivíamos sob a ditadura militar. Hoje é uma democradura.

O jornalista e escritor Wander Piroli
O jornalista e escritor Wander Piroli

Ricardo trabalhava na Pesquisa do jornal comandada por Carlos Felipe. Naquela época, ele gostava (não sei dizer se ainda mantém o gosto) de pescaria, de cachaça e de curtir a beleza e a grandeza da Mãe Natureza; apreciava o Cerrado, porque nascido em Curvelo, lia e relia João Guimarães Rosa, e até levou o epíteto de Diadorim, dado por Paulo Narciso.

Com essas qualidades, Ricardo tinha muita amizade a Wander Piroli e a todos nós. E foi justamente por isso, a partir da mensagem por ele enviada, que me bateu saudade de Piroli. Ele era uma espécie de pai/mestre para os da sua equipe e em geral para toda a redação, naquela época em que as máquinas de datilografia ditavam o ritmo.

Wander era um camarada de um humanismo fora do comum. Bonachão, intelectual formado na Lagoinha, lá onde hoje estão os viadutos. Entre umas e outras doses de cachaça, quando moço, via navalhas cortarem os ares da boemia, num tempo em que Belo Horizonte mantinha boa qualidade de vida, e era bom gostar da cidade.

Os primeiros “menores abandonados” incursionavam nas ruas da capital e se o problema tivesse sido atacado com a devida seriedade, não estaríamos vivendo dias tão difíceis e violentos.

Wander, carismático, àquela época já havia lançado o seu primeiro livro, “A Mãe e o Filho da Mãe”, que era ele mesmo, de quando mergulhava nas noites da Lagoinha e a mãe dele ficava até tarde acordada esperando o filho chegar, comportamento natural de todas as mães e em todos os tempos.

Debaixo da mesa de Wander quase sempre havia uma garrafa de cachaça. Da garrafa de cachaça, com o tempo, ele passou a deixar debaixo da mesa um garrafão. “Quanto mais bebo melhor fico”, dizia Wander, mas evidentemente, ele sabia muito bem dos limites e mantinha a sobriedade.

Volta e meia os companheiros da redação faziam incursões à mesa de Wander. Havia até um copinho de café pronto pra quem quisesse se servir. Esse foi um período em que os jornalistas ganharam a fama de beberrões, o que não se confirma nos dias atuais.

Quando não estava atacado pela enxaqueca, que o obrigava a se refugiar em lugar escuro, porque, dizia, a dor era massacrante, ele pegava a tralha, reunia os amigos, Ricardo, Lincoln Gonçalves e outros e buscava os rios para pescar. Foi numa dessas investidas, em companhia do filho dele, Bumba, que Wander escreveu o livro “Os Rios Morrem de Sede”.

Ricardo deve se recordar muito bem disso. Um dia Wander resolveu levar o filho a uma pescaria. Pôs o menino no carro e foi pelas estradas afora buscando um rio a fim de tentar molhar as iscas. Resultado: não encontrou nenhum rio que pudesse ter água limpa pra pescar um peixe. Todos os rios ou estavam secos ou estavam poluídos.

Um dos feitos da Editoria de Polícia do Estado de Minas, sob a direção de Wander – e Ricardo vai se recordar disso – foi a condução do Caso Jorge Defensor, um operário que a polícia da época – governo do general Ernesto Geisel e Aureliano Chaves governador de Minas – torturou a tal ponto que da cintura para baixo ele não valia mais nada.

Durante mais de seis meses, todos os dias, Wander editou uma notícia a respeito do Caso Jorge Defensor, o que valeu a Tito Guimarães e a mim (Francisco Sterling e Geraldo Elísio, da editoria de Política entraram depois na cobertura, quando o caso estourou na Assembleia Legislativa de Minas Gerais) e Sidney Lopes, como fotógrafo, o Prêmio Esso de Reportagem de 1977. Pela primeira vez na história do prêmio, a Esso premiava a notícia.

Pode-se dizer, aquela foi uma época gloriosa, Diadorim? Foi gloriosa como gloriosas são todas as épocas de cada uma das gerações de viventes. A diferença era a ditadura militar que ruía e o Caso Jorge Defensor ajudou nesse processo com uma gota do seu sangue.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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