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Coluna – Uma “viúva de Sarepta” em Grão Mogol

Grão Mogol, cidade localizada no mapa de Minas Gerais na divisa do Norte com o Vale do Jequitinhonha, completará 156 anos de emancipação nesta quarta-feira, 14, cheia de histórias. Histórias que remontam a segunda metade do século 18, ainda no período colonial, até o atual início do processo de tombamento do seu Centro Histórico por parte do IEPHA.

Um dos personagens mais famosos da região, onde o diamante brilhou e ofuscou as vistas de gente vinda de várias partes do mundo, foi o coronel da Guarda Nacional, o único Barão de Grão Mogol. Por aqui ainda existem muitos sinais da existência dele, sepultado em Rio Claro (SP), para onde se mudou a fim de plantar café e morreu dez anos depois.

Mas nem só de histórias de grandes personagens vive Grão Mogol, com população de cerca de seis mil habitantes no perímetro urbano, gente simples, acolhedora.

Corre, aqui, no boca a boca dos grãomogolenses a história de uma personagem simples, uma mulher analfabeta chamada Lucinda Alves Dias, de 70 anos na carteira de identidade, mas de fato 63 anos (ela foi registrada sete anos depois de nascida), com a qual conversamos hoje durante uma hora, sentados, um diante do outro.

A história dela remete quem conhece à passagem bíblia da “viúva de Sarepta” (Reis 17-7 a 16). A viúva recebera a visita de Elias, homem de Deus, que lhe pediu água para beber e um pedaço de pão. A mulher dispunha só de um punhado de farinha e um pouco de óleo na ânfora. Era comer, disse, “e depois morrermos”, ela e o filho.

Só que ela não sabia e ficou sabendo da boca de Elias o que Deus lhe havia dito em relação à viúva: “A farinha que está na panela não se acabará, até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a face da terra” (Reis 17-14).

No caso de dona Lucinda, ela estava passando necessidades, na miséria mesmo, com os nove filhos e o marido garimpeiro que gastava o pouco dinheiro conseguido com cachaça. E ainda maltratava a mulher sempre ao chegar a casa embriagado.

As crianças esfomeadas, uma delas paraplégica em cima da cama, dona Lucinda conta que pediu ao marido para comprar dois quilos de arroz e dois de farinha para calar o estômago dos filhos. E o marido respondeu-lhe: “Por que você não compra às suas custas”, teria dito ele.

Dona Lucinda
Dona Lucinda

A mulher entrou em desespero enquanto o marido saía para mais uma incursão ao boteco. Ela diz ter se ajoelhado no chão, debaixo de um pé de limão, e dirigiu as seguintes palavras a Deus: “Senhor se considerar que sou realmente sua filha, conserta a minha vida; se não me considerar sua filha, Senhor me tire desta vida”.

Ato contínuo, contou ela, apanhou uma enxada e a carumbé, uma espécie de gamela de madeira usada no garimpo e saiu de casa aos prantos rumo ao rio. Chegando lá, ajoelhou-se à margem e cravou a enxada no cascalho. Espichou o vestido para cobrir as pernas e se proteger contra os mosquitos, e na primeira vez que puxou para si o cascalho, uma pedra brilhante saltou-lhe em cima da roupa.

Dona Lucinda reconheceu logo: um diamante. Foi preciso esvaziar uma caixinha de fósforo para a pedra caber dentro dela. À época, cerca de 30 anos atrás, a notícia correu rapidamente na cidade. O então prefeito Afrânio Augusto Figueiredo, pai do atual prefeito, Jéferson Figueiredo, viu a pedra na mão dela e recomendou-lhe cuidado porque “alguém podia me passar a perna”.

Resultado: ela conseguiu vender o diamante para um comprador de Patos de Minas “por um bilhão e meio, naquela época de inflação alta”, disse a mulher e com o dinheiro do diamante saiu da miséria e até hoje vive dos resultados obtidos com a descoberta e venda da pedra.

Do dia em que encontrou o diamante em diante a vida de dona Lucinda mudou da água para o vinho. Ela, crente em Deus, não tem a menor dúvida de que foi ouvida por Ele naquele dia e em todos os dias da sua vida cheia de gratidão.

Quando vivia na miséria, inclusive naquele dia em que pediu ao marido para comprar dois quilos de arroz e dois de farinha, ninguém no comércio de Grão Mogol quis vender-lhe nada porque não tinha dinheiro. “Um dos comerciantes que se recusaram veio depois oferecer mercadoria e me pedindo para comprar na mão dele pra ajudar ele e eu ajudei”.

Como a viúva de Sarepta dona Lucinda nunca mais passou necessidade. O marido morreu quatro anos depois de encontrado o diamante. Ela casou-se com um homem que cuida dela e é carinhoso, ao contrário do falecido marido, com quem se casou aos 12 anos de idade e teve nove filhos, sendo dois partos de gêmeos.

Hoje, ela vive em casa própria. Possui alguns lotes próximos das margens do Rio Itacambiruçu onde construiu uma casa modesta, mas confortável, para passar os fins de semanas. Diz-se feliz e grata a Deus por tudo, desde o nascer do dia ao fechar dos olhos para dormir à noite.

Há anos, ela ganhou uma Bíblia e a carrega para onde vai, mesmo não sabendo ler. O importante é que dona Lucinda tem plena consciência de que “estou com a palavra e levo a palavra de Deus”. Bem não sabe ela que a sua história é uma versão moderna da “viúva de Sarepta”.

O caso de dona Lucinda é exemplo de como a perseverança e a paciência na fé em Deus levam o ser vivente aos melhores resultados. Mais do que ele merece.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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