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Há 126 anos, o Brasil era o último país do mundo a encerrar a escravidão, mas o futebol mantém a chaga do preconceito aberta

Lá se vão 126 anos que a Princesa Isabel assinou uma lei pondo fim à escravidão no Brasil. Era a última nação no planeta a colocar um ponto final num dos ciclos mais tristes da história da humanidade. Mas a história seguinte estava longe da felicidade. Quis o destino que os descendentes daqueles que foram torturados, açoitados e violentados voltassem a ser tratados como inferiores não nos cafezais e senzalas mas nos palcos do esporte mais popular, o futebol. Associações a macacos, cânticos agressivos, declarações abertas tomam cada vez mais parte do jogo quanto uma cobrança de escanteio. Algo difícil de evitar mais ainda de combater. Há 15 dias, a vítima foi o lateral-direito da seleção brasileira e do Barcelona, Daniel Alves. No último domingo, o zagueiro Kevin Constant, do Milan, da Itália. Também já sofreram do mesmo mal os atacantes Neymar e Balotelli, o ex-lateral Roberto Carlos. Roque Júnior, Juan, Jeovânio, Grafite…

A lista é quase interminável e Pernambuco já teve seu quinhão. Estádio dos Aflitos, 2002. Náutico e Santa Cruz medem forças pelo Campeonato Pernambucano. Nílson, goleiro tricolor, fecha o gol em várias oportunidades. Começam os gritos das arquibancadas: “Uh! Uh!”, a cada participação do camisa um. A onomatopeia utilizada pelos simpatizantes do Náutico simbolizava um macaco, animal associado pelos preconceituosos às pessoas negras. O mesmo coro nefasto já havia sido ouvido pelo goleiro quando os dois times se enfrentaram pela Copa do Nordeste naquele mesmo ano. Naquele estadual, ecoaria até em Ipojuca quando lá o timbu jogou.

Indignado, Nilson ameaçou processar. Mas quem? Eram apenas multidão. E multidão não tem rosto. “Na hora fiquei muito chateado porque aquilo era muito novo para mim. Na hora meu desejo era processar, mas depois as coisas se acalmaram e não dei atenção a isso. Você brigar sozinho contra dez mil pessoas!”, diz o jogador, atualmente atuando no futebol iraniano. Colaborou para o arrefecimento dos ânimos o pedido público de desculpas do então presidente alvirrubro, Sérgio Aquino.

Foram as primeiras vezes e, felizmente, para o jogador, as últimas. E o perdão definitivo veio dois anos depois. O Náutico o contratou e ele foi fundamental na conquista do título estadual em 2004. Por sinal, depois dele, as taças deflagraram uma greve contra os timbus que já chega a uma década. “Aceitei jogar no Náutico porque tudo aquilo já tinha sido ultrapassado”, lembra. Depois vieram Portugal e agora um dos países onde a religião muçulmana é mais radical. “Isso nunca mais aconteceu, graças a Deus”.

Nilson saiu dessa praticamente sem arranhões, ao contrário do árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva. Foi apitar Esportivo x Veranópolis, em Bento Gonçalves. Já na entrada, os berros de “macaco”. Nem mesmo as ameaças de levar os insultos à súmula da partida e, posteriormente, colocar o clube ofensor nos tribunais, inibiram as manifestações. Pior foi na saída. O carro do juiz repleto de bananas, inclusive no cano de escape, encerraram a tarde de horror. Márcio chorou ao chegar em casa e abraçar o filho, chorou diante das câmeras. E diante dos racistas entregou os pontos ao anunciar que sua carreira como mediador de jogos de futebol estava encerrada.

Melhor fizeram os jogadores do Milan em janeiro do ano passado. Era um simples amistoso contra o Pro Patria, da quarta divisão italiana. O alvo foi o ganês Boateng. Irritado, o jogador reclamou, tirou a camisa e saiu de campo, seguido pelos companheiros. Eram apenas 26 minutos do primeiro tempo. Outro milanista, o atacante Balotelli, chegou a ameaçar deixar o gramado, mas não concretizou. Quem o fez foi o brasileiro Roberto Carlos, quando defendia o Zenit, da Rússia.

Grande parte dos casos relatados neste 2014 vêm recebendo os devidos contra-ataques. O Villareal, clube cujo torcedor atirou uma banana em direção a Daniel Alves – que ironicamente a comeu na mesma hora – foi multado e o agressor, banido para sempre. A Atalanta, que tem por simpatizante o atirador da banana em Constant, terá um desfalque de 40 mil euros em seus cofres. Torcedores do Real Garcilaso, do Peru, imitaram macacos quando o brasileiro Tinga, do Cruzeiro, tocava na bola. A Conmebol tirou apenas US$ 12 mil (quase R$ 28 mil). O jogador criticou não o valor baixo, como se algo tão violento tivesse preço, mas o tipo de medida. “A melhor maneira seria envolver o clube em alguma questão social por aquilo que aconteceu ou fazer o clube usar durante certas partidas uma camisa com alguns dizeres contra a violência”, avaliou.

Racismo e futebol, uma relação ainda difícil de terminar. Fotos: divulgação
Racismo e futebol, uma relação ainda difícil de terminar. Fotos: divulgação

SEM REMÉDIO – Talvez a medida defendida por Tinga seja a mais próxima do que se imagina do ideal. O grande problema é que com racismo não há remédio. É no que acredita o jornalista Marcos Guterman, autor do livro O Futebol Explica o Brasil. “O racismo não vai acabar por causa de campanhas. O racista vai ser racista pelo resto da vida, a não ser que ele tenha alguma experiência que o faça ser demovido da ideia”, aponta. Campanhas com faixas dizendo “Say no to racism” (“Diga não ao racismo”) praticamente não rendem frutos.

E qual o caminho a tomar? Punir. E com rigor. “Talvez uma campanha ajude mas não resolve. Quem nasceu racista vai morrer racista. É preciso que se tomem medidas fortes. Tem que punir o clube, tem que prender. As pessoas precisam ter noção de civilidade, que não façam o que vem à cabeça. Ao menos vão inibir as manifestações”, arremata.

Por Wladmir Paulino – Pernambuco

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