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Racismo no futebol tem origens diferentes no Brasil e Europa

É fácil saber porque o futebol tornou-se um prato cheio para manifestações de preconceito. Todos são ouvidos mas nunca vistos. São rostos borrados no meio de uma multidão. Quer um lugar melhor para fazer o que quiser e não aparecer? Aí estão. Na vida civil, no dia a dia, é muito difícil encontrar alguém que seja capaz de encarar um jogador de futebol ou um cidadão comum e ofendê-lo abertamente. O que agrava no futebol é que a criança acompanha o pai e o vê atirando bananas e dizendo que fulano de tal não presta porque tem a pele de cor A, B ou C.

Estudos encomendados pela seleção não indicavam a escalação de Pelé na Copa de 1958
Estudos encomendados pela seleção não indicavam a escalação de Pelé na Copa de 1958

“Na vida civil é mais difícil alguém fazer. O futebol é o lugar ideal para isso. Uma criança pode ouvir e achar que dentro de campo pode. E aí vão repetir. Num estádio o mundo é recriado com outras regras: pode falar palavrão, pode chamar o juiz de ladrão, o jogador de macaco”, diz Marcos Guterman, autor de O Futebol Explica o Brasil.

Seria um reflexo de uma visão de mundo do europeu, que na opinião dele, é racista quase que na essência. “Não existe negro na Europa. E eles vêm os negros como inferiores. Isso foi trazido para o futebol”, avalia. Até a divisão entre o jogador intuitivo e o técnico deixa uma ponta da divisão racial exposta. O branco é o cerebral. O negro, o malandro, driblador. Uma cor é a da inteligência do homo sapiens, a espécie superiora. A outra, a do instinto natural, manifestação dos animais inferiores.

“O jogador negro é o cara do imprevisível, é exaltado pela malandragem, pela capacidade de enganar o marcador. Falcão, por exemplo, era um jogador cerebral, assim como Zico, Rivellino. Esse tipo de classificação você não vê com os jogadores negros. Nem com Pelé era assim. Garrincha, que era mulato, era visto como o driblador”, lembra.

HISTÓRICO – E foi justamente no futebol que o negro encontrou uma maneira de dar uma resposta ao opressor. Na Inglaterra, ele foi popularizado nas camadas mais baixas numa tentativa de conter as tensões sociais a partir do final do século XIX. As partidas eram extremamente violentas. De acordo com relatos da época, o saldo dos jogos eram perda de dentes, pernas quebradas, escoriações em todas as partes do corpo. Quase um jogo de bárbaros, exatamente como eram vistos os africanos das colônias inglesas, francesas, espanholas e portuguesas na África.

O esporte chegou ao Brasil através dos filhos da elite rural que vinham estudar na europa e pelos funcionários ingleses das companhias que se instalaram em São Paulo no início do século XX. Por isso, no Brasil o racismo tenha ali suas primeiras explicações. Só jogava quem fosse sócio de clube. E sócio de clube era rico, coisa que dificilmente algum homem negro naquela época conseguiria ser. “Os jogos eram organizados pelos trabalhadores ingleses e isso chamou a atenção dos grupos minoritários, entre eles os negros. Eles viram ali o único campo em que era possível vencer o mais forte”, conta.

Mas a sociedade demorou a aceitar. O Vasco, que escancarou as portas para negros e mulatos – embora caiba ao Bagu a honra de alinhar o primeiro jogador negro – sofreu diversas perseguições. Já é lendária a história do Fluminense. O jogador Carlos Alberto Fonseca Neto passou pó de arroz no corpo para disfarçar sua mulatice. Quanto mais o suor o encharcava, mais o embuste se descobria. A farsa fez com que o clube ficasse conhecido até hoje como Pó de Arroz.

Muitos clubes demorariam décadas para aceitar negros. O Grêmio só foi fazê-lo na década de 1950. O Náutico, na de 1960. O Palmeiras, de origem italiana, foi o último dos paulistas a aceitar atletas de cor, assim como o Coritiba no Paraná. Não por acaso, o clube é conhecido como Coxa Branca. Até a seleção brasileira já teve seus dias de racista. Em 1958, o técnico Vicente Feola foi aconselhado a não escalar jogadores negros, que seriam emocionalmente menos equilibrados que os brancos. Os exemplos seriam o goleiro Barbosa, injustamente apontado como vilão da tragédia de 1950 e parte do grupo do Mundial seguinte, em 1954. O estudo teria sido feito numa viagem da seleção à Europa dois anos antes.

Na estreia, diante da Áustria, o único jogador negro era Didi. Mas na terceira partida, Feola mandou as teorias às favas e mandou a campo o multado Garrincha e o negro Pelé. O resto da história todo mundo já sabe. O tempo passou e o Brasil chegou a jogar uma partida com um time cem por cento negro. Na Copa das Confederações de 1999, esse grupo enfrentou a Alemanha, curiosamente o berço da mais brutal manifestação de preconceito já vista. Os ainda tetracampeões venceram por 4×0. (W.P.)

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