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Coluna – O Trote

Avelino, Carlaile e Bil pegaram o ônibus fora do ponto, ameaçaram o motorista com uma arma de brinquedo e foram contando vantagens pelo trajeto. Além deles uma senhora que se encolhera em posição fetal numa cadeira atrás do motorista e um vendedor de algodão doce que fizera malabarismos para esconder o lucro do dia nas entranhas da cueca. Porém não se deram conta dos gestos do homem nem tiveram motivos para atacar à senhora, mas o trocador não contara com a mesma sorte, sendo obrigado a entregar o que havia arrecadado com as passagens e também um celular de varias funções com prestações a vencer. O motorista ficou sem a carteira contendo vinte e cinco reais e setenta e cinco centavos. O trio além do furto ameaçou colocar fogo no ônibus, fazendo com que os ocupantes se perdessem cada um para o seu lado com medo de virar churrasco. Eram três rapazes que beiravam os trinta anos de existência, vivendo de furtos, roubos, estelionatos e receptações para revenda, cada um se parecia mais com o outro nas ações criminosas. Mas Avelino tinha a Bia, moça honesta que após muita luta e um casamento frustrado e sem filhos, conseguira uma bolsa em cursinho gratuito da cidade e se aprovara com boas notas na Universidade para fazer Direito. Mesmo sabendo da fama do namorado  não se deixava influenciar pelo que as pessoas diziam, principalmente dentro de casa, e, cobrava postura e mudança de vida. Para Avelino Bia era a razão de tudo que lhe restara de bom e avisava aos comparsas que em breve deixaria o crime, queria “acertar a boa” e sossegar nos braços dela, que com orgulho a tratava  de “doutora”. Mas enquanto isto a inquietude marginal não tinha tréguas, quando não atacavam a sociedade de uma maneira criavam outras formas de fazê-lo. E uma destas era o trote, um prazer inexplicável de ligarem para: Polícia, Bombeiros, Hospitais, casas de desconhecidos e até para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Fumavam maconha e bebiam se contorcendo de riso, quando uma viatura passava aos berros procurando o que não existia, os socorristas aflitos procurando a vitima, mas descobriam que a vitima era falsa, era o êxtase. E certa noite igual a todas anteriores, faziam suas arruaças no mesmo ponto, enquanto longe dali um ônibus chocara-se com um caminhão da coleta de lixo, a cidade toda se envolvera  no intuito de salvar aquelas vidas que se contava mais de quarenta pessoas feridas, varias ambulâncias  enviadas de todos os setores de resgate. Porém por precaução, acharam  por bem que ficasse uma viatura no resguardo da situação, uma vez que os números diários de ocorrências pediam este tipo de raciocínio. E o trio não ligava o radio, nem via televisão para saber o que se passava, a corrente enxuta do egoísmo se fechava entre eles. Mas em outro ponto distinto estava Bia, que saia mais cedo da Universidade para contar ao namorado que estava grávida. Entre as lágrimas de prazer e o receio da recepção pela família, optara-se por lutar para pelo sonho da maternidade, acreditando que Avelino se tocaria com a noticia se tornando no homem que ela sonhava. Familiares dos acidentados se multiplicavam pelas ruas em direção ao local do fato, passavam em sinais vermelhos e por ruas de contra mão, Bia que não tinha nada a ver com aquilo, estava feliz e andava displicente na rua com a mão na barriga, acariciava se lembrando do namorado criando expectativas de como receberia a novidade. Mas um carro cor de cinza em alta velocidade chocou-se contra ela arremessando-a contra a parede de uma floricultura, desacordada e com sangramento intenso, Bia ficara sob cuidados dos olhares  curiosos, já que não fora socorrida pelo agressor. Simultaneamente a única Ambulância que poderia salvá-la estava a quase cinqüenta kilometros de distancia, atolada em um pântano onde Avelino indicara em trote, pedindo socorro para uma senhora que havia sofrido um ataque do coração. Os três se contorciam de risos, por conhecerem o lugar e saber que dali o carro não voltaria tão cedo, e La no chão com olhos estatelados e um rio de sangue em baixo da cabeça, Bia era coberta por um lençol branco de uma funerária, após um voluntário medico atestar o óbito.

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso
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