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Europa – Após 70 anos, sobreviventes da Segunda Guerra relatam Dia D

Já se passaram 70 anos, mas Steven Melnikoff e Bob Behr nunca esqueceram do dia 6 de junho de 1944. Melnikoff, na época com 24 anos, participava do Dia-D – operação militar da Segunda Guerra Mundial que invadiu a Normandia para derrotar os nazistas. Enquanto isso, Behr, com 22 anos, estava preso em um campo de concentração para judeus, sem saber se viveria para ver o dia seguinte. Até hoje eles continuam marcados por esta data, e, mais do que nunca, compartilham suas histórias para um melhor entendimento sobre a guerra.

Ao avançar para a Alemanha, Melnikoff levou um tiro no pescoço e outro no ombro. 'Eu tenho muita sorte', disse
Ao avançar para a Alemanha, Melnikoff levou um tiro no pescoço e outro no ombro. ‘Eu tenho muita sorte’, disse

A operação Dia-D, imortalizada no filme O Resgate do Soldado Ryan, foi a maior intervenção militar anfíbia da história, com 150 mil soldados aliados, a maioria americanos, britânicos e canadenses. Segundo o historiador americano Joseph Balkoski, a iniciativa é hoje considerada o início da decadência nazista, que veio um ano depois. “Após aquele dia, os alemães foram perdendo território, e ficaram prensados entre os aliados no oeste, e os soviéticos no leste”, explica.

O soldado aliado
Hoje com 94 anos, o ex-soldado americano Melnikoff recebeu a reportagem do Terra na sua casa, em um bairro residencial em Maryland, nos Estados Unidos. Sorridente, diz que mantém a boa forma jogando golfe, e o bom humor brincando com os bisnetos. E garante que não se incomoda em dar entrevistas: “Eu gosto de contar a minha história porque muitos soldados do exército não estão mais aqui para contarem as suas”, diz.

O americano Melnikoff, hoje com 94 anos, ainda lembra de encontrar refugiados dos campos de trabalho escravo na Alemanha. 'Foi muito triste', lembrou
O americano Melnikoff, hoje com 94 anos, ainda lembra de encontrar refugiados dos campos de trabalho escravo na Alemanha. ‘Foi muito triste’, lembrou

Ao lembrar do Dia-D, reconta como se fosse uma cena de filme: ele estava com outros 45 homens da 29ª Divisão de Infantaria num pequeno barco militar no Canal da Mancha, “espremidos como sardinhas”. Entre um jogo e outro de cartas, esperavam para invadir a Praia Omaha, na Normandia, no que seria uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra. “Eu estava tão perto que eu via a praia, ouvia os tiros e sentia o cheiro de fumaça”.

O grupo só desembarcou no dia seguinte, porque o tiroteio estava tão intenso que seu capitão tinha certeza que eles não chegariam vivos até a praia. “Eu desci do barco através de uma corda, e tive que correr para a praia com água até o pescoço, abaixo de tiros e carregando suprimentos para três dias”, lembra. Ao pisar na areia, viu muitos corpos no chão: pelo menos 50% dos soldados aliados foram mortos pelos alemães nos primeiros dias.

“Eu tive muita sorte”, reconhece Melnikoff. Mas as cicatrizes que carrega até hoje no corpo são provas dos meses difíceis que vieram a seguir. Na medida em que avançava para a Alemanha, ele levou um tiro no pescoço e outro no ombro, mas após receber tratamento foi reenviado para a linha de frente. “Ainda tenho estilhaços de bala no meu ombro. Mas não me incomoda”, diz.

Por outro lado, algumas cenas da guerra ainda o perturbam: uma delas foi encontrar refugiados de campos de trabalho escravo ao chegar na Alemanha. “Nós vimos muitos pelo caminho. Pouco se sabe sobre a quantidade de pessoas que estavam em campos de trabalho escravo – e não só judeus, mas ciganos, eslavos, entre outros”, diz. Ele ainda lembra de receber pedidos desesperados de comida, água e roupas. “Foi muito triste”.

O sobrevivente do Holocausto
Um desses refugiados era o alemão Bob Behr. Hoje com 92 anos, ele mora em Washington, nos Estados Unidos, onde trabalha como voluntário para o Museu Memorial do Holocausto. Foi numa sala de conferência do museu que ele pacientemente compartilhou sua história de vida com a reportagem.

No dia 6 de junho de 1944, Behr estava longe dos campos de batalha, mas nunca vai esquecer desta data. Ele estava em Berlim, na Alemanha, sendo forçado a reconstruir, com outros 200 judeus, a sede da SS (polícia nazista), que havia sido bombardeada. A crueldade do líder nazista Hans Jüttner, somada à exaustão e pouca comida, quase o fizeram desistir da vida. “Pela primeira vez eu queria morrer. A vida era muito infeliz”.

Behr já estava cansado de ser forçado a trabalhar para o regime nazista. Ainda adolescente, teve que carregar carvão e materiais de construção para empresas parceiras de Hitler. Mais tarde, foi deportado para Theresienstadt, uma mistura de gueto e campo de trabalho escravo com 60 mil judeus na Tchecoslováquia. Chegando lá foi forçado a enterrar corpos dos judeus que haviam morrido de doença e desnutrição.

“A prática do trabalho escravo era uma forma de perseguição, mas também ajudava a sustentar a economia nazista”, explica Geoffrey Megargee, pesquisador sênior do Museu Memorial do Holocausto. Os prisioneiros tinham que fazer de tudo: asfaltar estradas, trabalhar em fábricas e explorar minas. “Na verdade era uma sentença de morte, porque eles eram tão mal tratados que acabavam morrendo. Ou ficavam muito fracos e eram mandados para campos de extermínio”, diz.

Hoje Behr acredita que sobreviveu graças à uma tarde de domingo, quando viu, pelo arame farpado do campo de concentração, uma tropa nazista marchando em direção ao oeste. “Havia boatos que os Alemães estavam enfrentando os soviéticos. Então me dei conta que eles tinham perdido e estavam recuando”. A informação lhe deu força para sobreviver até que ele fosse libertado em maio de 1945.

Apesar de caminhar com dificuldade, hoje ele faz questão de contar a sua história para visitantes do Museu Memorial do Holocausto. “O meu dever é evitar outro Holocausto, mas, para isso, os jovens precisam saber como tudo aconteceu e lutar conta as injustiças diárias”, conclui.

Historiador: “Sabemos muito pouco sobre a Segunda Guerra”
Mesmo após 70 anos, os relatos de sobreviventes ajudam historiadores a entenderem melhor a Segunda Guerra Mundial. É que muitos deles só começaram a contar as suas histórias quando envelheceram e se deram conta da sua mortalidade. ”Foi assim com o meu pai, quando ele voltou da guerra, não queria falar sobre o assunto nem com a família”, afirma o historiador americano Joseph Balkoski.

As narrativas, junto com documentos históricos que só foram disponibilizados recentemente, têm mudado a percepção que se tinha sobre este período da história. “De repente nos demos conta que sabemos muito pouco sobre a Segunda Guerra”, afirma Balkoski, que nos últimos anos escreveu oito livros só sobre o Dia-D.

No ano passado, por exemplo, o Museu Memorial do Holocausto divulgou que o número de campos de repressão nazista era muito maior do que se imaginava: cerca de 42,500 espalhados pela Europa. Além dos campos de extermínio, havia muitos outros campos de trabalho escravo, guetos, prisões sexuais e locais de eutanásia.

Os dados estão sendo publicados, pela primeira vez, na Enciclopédia dos Campos e Guetos, que terá sete volumes até 2025. Para o pesquisador e editor da obra, Geoffrey Megargee, estas informações comprovam que os alemães sabiam dos campos de concentração. “Eram muitos. Não tinha como eles não saberem”.

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