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Coluna – E os nossos rios morreram de sede?

Para lembrar o poeta Casimiro de Abreu (1839-1860) com aquele lindíssimo “Poema da Noite – Deus” inicio parafraseando os versos dele: “Eu me lembro! Eu me lembro! Era pequeno…” e morava em Montes Claros. Acreditem, naquele tempo em que de fato era menino (agora sou menino por direito), havia nos arredores da cidade alguns rios onde muitos dos montesclarinos campeões de natação nas disputadas competições da Praça de Esportes aprenderam a nadar.

Como já faz uma data estou fora dessa cidade amada, que se agigantou numa fração de segundos se se levar em conta a relatividade do tempo, não posso garantir a existência dos rios que fizeram a alegria de gerações de conterrâneos (e tristeza de certas famílias cujos filhos pereceram afogados) ou se eles morreram de sede, como diria o amigo jornalista e escritor Wander Piroli, já falecido, montesclarino por aclamação.

Acreditem, se esses rios ainda existem devem estar no perímetro urbano a essa altura das transformações pelas quais a cidade passou nas últimas décadas. Mas naquele tempo, os rios se encontravam fora do perímetro urbano e para ter acesso a eles era preciso andar e andar um bocado.

Muita gente morreu afogada nesses rios de então. Este era o maior temor das mães daquela época. Mas ainda assim os filhos iam nadar escondido nos rios e quando chegavam a casa, a primeira iniciativa das mães era passar as unhas nos braços dos meninos. Se deixassem rastros esbranquiçados na pele eram sinais de que haviam passado a tarde nadando em rio.

Havia o rio do Melo. Quem se lembra? O que foi feito dele? A região foi toda urbanizada e se apossou do nome do rio. Na época em que o rio do Melo corria, uma das poucas casas próximas dele era do tio Abel, pai de uma penca de filhos quase todos vivos, entre os quais Mário, Ninho chamado; Saul, Fernando e Abel, mas também pai de Nice, Marlene, Clarice e outras irmãs. Era um lugar ermo. Acompanhado de Saul perambulávamos pelos matos à caça de rolinhas pra fazer guisado.

Havia a Lajinha. Várias foram as vezes em que fui a Lajinha com estilingue pendurado ao pescoço. E como não sabia nadar, espiava os amigos pulando n’água de ponta ou dando saltos mortais. Ficava com enorme vontade de fazer a mesma coisa, mas os ecos da advertência de mãe soavam mais altos. Se chegasse a casa e fosse submetido ao teste das unhas e reprovado, seria “um deus nos acuda”.

Havia também o Pai João, um rio que tinha poços fundos e deve ter sido o campeão em ocorrência de afogamentos. Este ficava mais próximo da cidade. Quem ia para a Vila Ipê passava próximo dele. Havia o rio Carrapato. E também o Vieira. Este passava nos fundos do quintal de nossa casa, na Rua Marechal Deodoro. Na época o ribeirão não recebia o esgoto da cidade como acontece impunemente até hoje.

A fase de buscar os rios terminou a partir de quando descobri ser melhor frequentar a Praça de Esportes. Mas o “medo” da água ficou como uma cicatriz porque mãe tinha medo de perder um filho afogado e só agora, tanto tempo depois, percebo a origem do temor dela. Devia estar intimamente relacionado com o fato de um dos seus irmãos, José, ter morrido afogado.

A morte de José aconteceu assim: ele seguia junto com a tropa de soldados para lutar na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Disseram que ele teria se afogado no Nordeste, acho que em Rio Grande do Norte, onde tomaria um navio.

Um companheiro enviou foto dele como lembrança, na qual os dois estavam juntos vestidos de calção de banho a beira mar. Dele restou à família uma foto, que mãe mandou emoldurar e pendurou na sala de visitas da casa da Rua São Francisco. José vestia farda verde oliva, e para mim era um orgulho tê-lo como tio.

Na Praça de Esportes usufrui de todas as opções de atividades esportivas, menos natação. Era como gato escaldado, com medo de água fria.  Nado quase nada hoje.

Mas bom mesmo era jogar pelada na pista gramada da Praça de Esportes e pingue-pongue debaixo do telhado próximo da piscina grande, lá onde morreu afogado um conhecido que morava na Rua Doutor Santos, quase esquina de Rua Dom João Antônio Pimenta.

Era ele um jovem adolescente cuja mãe descobrira estar praticando furtos na cidade e pediu a Deus para levá-lo embora “desta vida”, de tão envergonhada ela ficou.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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