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Brasil – Documentário mostra lado ruim da Copa e sensibiliza europeus

Os protestos contra a Copa do mundo no país do futebol cruzaram as fronteiras do Brasil no ano passado e chegaram à Bélgica, país mais conhecido por suas cervejas e chocolates e sede de parte importante das instituições da União Europeia. Copa para quem? Essa foi a pergunta de milhões de brasileiros e também da jornalista e documentarista belga Maryse Williquet, 25 anos. Mesmo sem dominar o português e consciente de que o dia-a-dia em Bruxelas pouco se pareceria ao de Fortaleza, capital do Ceará, Maryse se atreveu na tarefa de registrar e mostrar uma Copa do Mundo que poucos querem ver.

A belga Maryse Williquet (terceira da esq. para a dir.), 25 anos, durante as filmagens em Fortaleza para o documentário "Copa para quem?"
A belga Maryse Williquet (terceira da esq. para a dir.), 25 anos, durante as filmagens em Fortaleza para o documentário “Copa para quem?”

Foram oito meses de trabalho – três meses para arrecadar fundos em Bruxelas para produzir o documentário e cinco meses em Fortaleza para aprender português, trabalhar junto às comunidades carentes, organizar entrevistas, gravar imagens e contar várias histórias que se entrelaçam.

Maryse e a parceira de realização do filme, Clementine Delisse, tiveram oportunidade de ir a outras cidades do Brasil, mas convenceram-se de que cobrir uma grande metrópole do nordeste do País já seria um enorme desafio. “Achei que Fortaleza era uma cidade com um grande paradoxo: muito turismo, muito luxo, mas também grande pobreza, muita corrupção e muito lixo”. Com um documentário sobre a Copa dividido em quatro eixos temáticos, a jovem jornalista belga revela o Brasil ao mundo e deixa o Brasil se descobrir. Em entrevista, ela fala sobre a realização de seu primeiro documentário e a repercussão que tem percebido.

Por que você escolheu fazer um dcoumentário sobre a Copa do Mundo?
Maryse – No início eu estava intrigada com o Brasil. Do ponto de vista econômico é hoje um país muito importante, mas ainda há milhares de pessoas que moram em condições precárias. E depois vieram as manifestações em junho de 2013, quando então disse a mim mesma: “tenho que fazer alguma coisa sobre isso”. Pensei: “há milhões de brasileiros na rua e temos que dar a oportunidade para essas pessoas se expressarem e descobrirmos o que está do outro lado”.

Qual foi o orçamento para fazer o “Copa para quem”?
Maryse – O total foi de 20 mil euros usados para pagar as despesas com transporte, moradia, alimentação e as 10 pessoas da ONG Switch Asbl que trabalharam comigo em diferentes etapas do documentário.

Você fez crowdfunding?
Maryse – Sim, 15 mil euros vieram de um fundo para jornalistas belgas e 5 mil de um crowdfunding.

Qual foi a parte mais difícil do projeto?
Maryse – Foi tudo muito difícil porque eu moro aqui (em Bruxelas). Então não é o mesmo contexto, com certeza. Eu me preparei para encontrar pessoas em situações difíceis, mas quando chegou o momento, foi realmente duro. O mais difícil foi quando encontrei as duas prostitutas, muito jovens. Elas poderiam ser a minha irmã, têm quase a mesma idade. Elas têm entre 16 e 17 anos e se prostituem desde os 13 anos… E dão um testemunho muito consciente, não apenas centrado nelas mesmas, mas com muita reflexão sobre a sociedade brasileira. Isso me marcou e impressionou muito. 

Você escolheu quatro eixos temáticos: protesto social, expulsão de comunidades, meninos de rua e turismo sexual. Se tivesse mais orçamento e tempo, teria escolhido mais algum?
Maryse – Sim, seria sobre a mídia alternativa, como o coletivo Ninja, além do grupo Nigeria de Fortaleza. E também sobre o direito dos trabalhadores.

Quantas pessoas já assistiram ao documentário?
Maryse – Na internet temos 50 mil visitas. É a única estatística que temos. Também difundimos o filme em quatro canais de televisão da Bélgica. O jornal Le Soir também o está divulgando. E fizemos uma projeção no mês passado para 300 pessoas. Então, por agora, não posso calcular exatamente o impacto em números.

E qual tem sido a repercussão? O que as pessoas dizem?
Maryse – Tem dois tipos: as mais próximas, que são pessoas já sensibilizadas às causas sociais, que se mantêm atualizadas sobre o que acontece no mundo e fora das organizações. Eles estão contentes de ver imagens concretas sobre o que acontece dentro do Brasil. Mas o que é mais legal é que estamos conseguindo tocar um outro público, que está se dando conta sobre o que se passa em um país onde, sim, há festa em todo canto, mas também há outra realidade no meio dela. E a ideia de vir a um país, se instalar, fazer a festa e depois ir embora e deixar tudo como era… É preciso refletir um pouco… Não queremos que as pessoas se sintam culpadas, nem somos contra a Copa, mas se trata também de uma oportunidade de sensibilização e conscientização, de pensar também nos problemas.

 E os entrevistados, como reagiram ao lançamento?
Maryse – Estou muito feliz que as pessoas entrevistadas se sentiram respeitadas no documentário. Eles disseram que se reconheceram no filme, que foram retratados com honestidade. E estão contentes de ver que pessoas da Europa se interessaram por eles, vieram conhecer a realidade deles e que não fomos lá para filmar e pronto, mas continuamos em contato.

E para você, Maryse, a Copa é para quem?
Maryse – Eu diria que a Copa pode ser para todos, porque é uma festa internacional e com certeza as pessoas que encontramos estão fazendo a festa quando o Brasil ganha um jogo. Mas, ao mesmo tempo, acho que não vai ser para os brasileiros da rua, os que tiveram muita esperança de que seria uma oportunidade de investimentos na saúde, na educação, e que na verdade foi mais para as construtoras, as agências imobiliárias, os hoteis e o governo. Receio que o Brasil no fim das contas termine com mais dívidas do que benefícios.

 
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