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Coluna – “Zé do Biscoito”

Ele chega de mansinho, quase toda noite. Bate no portão. E quando ouve a pergunta: “Quem é?” Responde: “É o Zé do Biscoito”, com um tom de voz característico.

“Zé do Biscoito”
“Zé do Biscoito”

Toda Grão Mogol o conhece. Desde pequeno, menino de calças curtas. Ele confirma que vende biscoitos confeccionados por Maria Adelícia Gomes de Oliveira (Dé de Valdo), mulher que o adotou quando ele tinha oito anos e “vivia o tempo todo na rua”. “Gostei dela”, disse.

Hoje com 26 anos, “2º Grau concluído”, ele quer continuar os estudos para assegurar uma posição melhor na vida.

– O que você traz hoje, Zé?- a pergunta é inevitável.

E ele, na sua simplicidade, sorrindo sempre, responde:

-Tenho “espremidinho”, tareco e biscoito de farinha.

Às vezes acontece de ele chegar só com “espremidinho” biscoito feito com goma, porque vendeu todo o “tareco” e o biscoito de farinha. Noutras vezes, ele chega com “espremidinho” e “tareco”. Abre os sacos plásticos e mostra.

Zé é tímido. Nota-se essa característica dele logo no primeiro momento. Mas bem educado. Disse ter nascido “com problema mental”, o que lhe valeu aposentadoria pelo INSS.

Cada saquinho de biscoito custa R$ 2. Ele sempre agradece pela compra e pede a Deus para nos abençoar. Em retribuição, ouve: “Que Deus abençoe você também, Zé”.

E lá vai ele oferecer biscoito noutra casa, com o jeito próprio de ser. Zé cativa as pessoas pela simplicidade nata.

As pessoas costumam confundir simplicidade com humildade. Humildade, para quem não sabe, é a energia maior existente. Foi a humildade de Deus que criou o Universo. Veja Jesus Cristo como exemplo. Nunca houve na Terra ninguém mais humilde do que o Filho de Deus.

Numa noite, ao saber que estávamos gripados, Zé nos surpreendeu: meia hora depois de nos ter vendido os biscoitos, olha ele de volta batendo de novo no portão. Disse ter ido a casa onde colheu da horta no quintal funcho, capim santo, erva cidreira, hortelã e ervas outras, medicinais.

Como estava escuro, ele disse ter usado uma lanterna para colher as ervas. Pôs cada uma em sacos separados e recomendou fazer “um chá” com limão cortado em cruz.

E ainda teve a capacidade de se desculpar dizendo “não sei se vocês gostam de usar remédios de horta”. “Claro que gostamos Zé, desde criança nossa mãe fazia chá pra nós sempre que havia alguém gripado em casa”, foi a resposta.

E vejam, mais uma vez, ele pediu desculpa achando que podia haver entre as ervas mato porque “estava escuro”.

“Que isso Zé, não havia mato nenhum, você é um camarada cuidadoso”, dissemos. Ele esboçou sorriso simples e mais uma vez desejou um “Deus abençoe” e recebeu outro “que Deus o abençoe” de volta.

Zé começa a vender biscoitos às 3h da tarde e termina lá pelas 8h da noite. Ele renova as remessas sempre que é necessário, retornando a casa para buscar mais.

Zé é um dos tipos humanos de Grão Mogol, essa cidade “sui generis” incrustada nas fraldas do Maciço do Espinhaço. Aqui o relacionamento entre as pessoas não é virtual. As gentes se encontram no Rodomercado, inaugurado recentemente pela Prefeitura Municipal, para bater papo e principalmente na Rua Direita batizada de Cristiano Relo, a via mais importante da cidade, onde em meados do século 18 gentes de várias partes do mundo fervilhavam ali, em redor do brilho diamantífero.

O dia em que Zé não passa em casa pra vender biscoito, nós ficamos pensando que tudo acabou antes de ele chegar à nossa casa, na Rua Hilário Marinho, próximo ao Presépio Natural Mãos de Deus, o maior do mundo, que todo grãomogolense precisa conhecer, valorizar e se orgulhar de tê-lo aqui.

Se o Zé fosse apresentado a Carlos Drummond de Andrade, se vivo fosse, o poeta itabirano poderia escrever um poema sobre esse personagem terno, filho de Grão Mogol, iniciando com o verso seguinte: Quando Zé nasceu, um anjo de asas azuis afagou-lhe o rosto e disse: “Vai Zé, vai ser vendedor de biscoito na vida…”

Zé foi.

E continua indo.

Andando, com as graças de Deus, Nosso Senhor. Amém.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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