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Coluna – O Olho Profundo da Dor

Quatro folhas escritas com letras cursivas e bem acabadas rodopiavam sobre a mesa. A janela entre aberta e um vento leve que ia e voltava sem ordem alguma. Numa das folhas havia a data em que escrevera aquele emissor, vários nomes e um saudosismo de golpear a garganta com o nó do choro. Bem longe dali uma voz ecoava gritando por um nome, repetiria outras vezes até se perder na imensidão do nada, era dia, mas o sol não brilhava com o vigor de sempre, apenas nuvens cinzentas e alguns urubus no céu, inquietos como se fossem atraídos por alguma coisa que cheirasse mal naquela direção. Na pequena estrada que seguia rumo ao norte jazia uma cruz caindo para um lado, entrelaçada de ervas daninhas e um pé de rebenta boi com frutos amarelos poucos metros à frente. A verdadeira história daquele lugar poderia ser contada inúmeras vezes por Vicente Felix, um Radio técnico vindo de São Paulo no final dos anos 60, para ser mais preciso em 1969 tatuado com um canivete corneta no tronco do umbuzeiro. Vicente era conhecido por Paulistinha, sua identidade real tinha pouco a ver com aquele senhor esguio de fala mansa que trabalhava sem queixas na roça e consertava rádios e vitrolas a quem solicitasse, também costurava bolas de futebol e presenteava os peões que trabalhavam com ele. Certo dia numa tarde de caipirinhas celebrando o domingo revelara ser fugitivo do Dops Paulista, fora preso por subversão e era procurado pelo Governo Médici que oferecia recompensa por sua captura, leve e destemido, naquele dia Vicente ou Paulistinha não percebera que uma daquelas pessoas que lhe ouvia era convidado de uma filha do dono da fazenda e anotava insistentemente como se fosse jornalista, ninguém fora capaz de se ater aquela situação já que o clima era de festa, pouco depois viera uma violão e com ele fizeram uma fogueira e tocaram até o raiar do dia, aquele “estrangeiro” de perto dali era ninguém menos que um aspirante do exercito filho de um conhecido repressor do DOI-CODI. A segunda-feira viera sem o labor de Vicente na enxada, sua ressaca era forte e da cama não levantara durante todo o dia, Porém aquele simplório homem não se deixava exposto como presa fácil, confeccionara um aparelho que captava ondas de rádios a muitos quilômetros à frente e foi justamente por intermédio deste que inteceptara uma comunicação da Policia dizendo que fariam o cerco ao Comunista. Reunira forças mesmo debilitado pelo álcool e se arrastara sem ser notado para os fundos da casa e de lá se perdera no meio do mato. Mas antes pudera perceber que o aspirante e delator da sua presença chegava sozinho em um cavalo, disfarçando qualquer envolvimento, Vicente o chamou dentro da choupana que dormia e dera-lhe um golpe na cabeça com um martelo, findando-lhe a vida com um corte profundo no pescoço, incendiara a casa com o corpo carbonizando lá dentro. Com a sutileza de um guerrilheiro vira de longe as patrulhas revirarem as cinzas e darem-se por satisfeitos pela morte do subversivo. Dentro da casa varias pessoas vasculham lentamente cada canto, uma senhora de lenço branco na cabeça e vestido florido de azul catava os pratos de uma prateleira de mogno e colocava dentro de um saco de estopa, uma moça apressada mergulhou em baixo da cama e saiu com uma mala, seu sorriso de contentamento dava entender que sabia o tinha dentro. Uma velha bruaca fora arrastada para o terreiro e em poucos minutos o interior da casa estava totalmente vazio, sobre um carro de bois que começou a andar com seu ruído triste fazendo marcas profundas sobre a areia molhada. Dois homens seguiam a frente balançando um corpo dentro da rede, enquanto as mulheres com velas nas mãos rezava o terço. No mourão da porteira uma coruja observava aquele cortejo movendo a cabeça para os lados como se procurasse alguma coisa, daquela casa solitária um olho invisível seguia o rastro daquela poeira com uma lágrima de dor dentro da solidão da saudade.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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