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Coluna – “Desencontramento”

Outro dia, deparei-me na internet com linda foto noturna de Montes Claros toda iluminada, parecia calçada de ouro, se não me engano focalizando o interior do Parque de Exposições João Alencar Athayde, e fiquei deslumbrado com a beleza do meu torrão natal.

Realmente, dependendo do equipamento fotográfico, dotado de lentes várias, inclusive grande angular, e do olho de quem está por trás da câmera, Montes Claros possui ângulos magníficos e pode vir a impressionar a quem não conhece a cidade ou quem conheceu e nela viveu em passado nem tão longínquo se levado em conta à relatividade temporal.

Só um insano da cachimônia entraria numa de querer barrar o tempo a fim de evitar as transformações e as intervenções na cidade desrespeitando a sequência do cumprimento do seu destino como polo de atração que sempre foi de tudo vindo do Nordeste brasileiro rumo à capital mineira ou São Paulo.

Nas décadas de 60/70, sempre que a seca brava se instalava no norte de Minas e no nordeste brasileiro, levas e mais levas de retirantes chamados surgiam da noite para o dia na cidade amontoados em carroçaria de caminhão sem conforto e segurança fugindo do estio. Eram os “paus de arara” apelidados.

Uns nem conseguiam seguir em frente, ficavam pelas ruas da cidade e ganhavam a simpatia de quem conheceu tipos humanos como Requeijão, Galinheiro, João Doido, entre outros, de origem incerta e não sabida.

É preciso ter vivido a Montes Claros de antes para comparar com a metrópole de hoje. A cidade era um lugar de encontros. Tanto que na época surgiu uma revista batizada de Encontro, idealizada pelos jornalistas Lúcio Bemquerer, grãomogolense; e os montesclarinos Waldyr Senna Batista e Décio Gonçalves, uma publicação além do próprio tempo.

Nesse período, podíamos encontrar os amigos na Praça de Esportes, nas esquinas da Rua Doutor Santos com Dom Pedro II, nos cafés Zim Bolão e Galo, na porta da Cristal, no Clube Montes Claros, no Automóvel Clube e na porta dos cinemas (Coronel Ribeiro, Fátima, São Luis, Ypiranga).

Com o crescimento horizontal e vertical da cidade, pelo que acompanhamos daqui, dos píncaros do Maciço do Espinhaço, em Grão Mogol, Montes Claros já não possui lugares de encontro. “Encontro” agora é só revista, cujo nome Lúcio Bemquerer cedeu, em finais da década de 90, ao belo-horiozontino/montesclarino, Paulo César de Oliveira, PCO chamado, revista que atualmente pertence aos Diários Associados e circula, conforme está publicado no expediente, com 72 mil exemplares, tiragem auditada.

Pelo que se ouve dizer e é publicado pela mídia montesclarina sair de casa vem se tornando um tormento como acontece em todas as grandes cidades brasileiras. Se na época dos encontros as famílias podiam sair a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada, atualmente quem sai não tem certeza se voltará pra casa, ileso, sem ter sofrido assalto ou atropelamento no trânsito intenso e confuso da cidade.

O problema da insegurança pública existe e ainda é superestimado pelos montesclarinos. Surgiu, então, “uma neura coletiva”, o que faz aumentar o medo de sair de casa. Proliferam-se muros altos, cercas elétricas, câmeras e uma parafernália que em síntese não oferece segurança nenhuma. Quem está disposto a praticar um crime sabe como superar esses obstáculos.

Em vez de se ocuparem com as causas do problema, o governo federal e a sociedade brasileira continuam fazendo ouvidos moucos e quando muito combatem os efeitos como quem costura pano novo em roupa velha ou tenta enxugar gelo. As populações colhem cada dia mais os frutos amargos da omissão dos governos que tiveram todas as oportunidades para estancar o problema no nascedouro socioeconômico e político gerador da violência. Ficaram olhando o crescimento do monstro criado pelo egoísmo e pela ganância dos que só conjugam o verbo possuir. E quanto mais eles têm mais querem ter.

Montes Claros é atualmente a cidade da contradição. Nunca teve plano diretor que pudesse reprogramar a velha urbe compatibilizando o desenvolvimento com o bem-estar da população. Nunca. Houve uma tentativa seguida de desistência quando o prefeito era Toninho Rebello.

Montes Claros cresceu desembestadamente. Agora está entre a cruz e a caldeirinha vitima em potencial do materialismo e do consumismo, fenômenos que põem em risco a sobrevivência humana no planeta.

Por Alberto Sena

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