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Coluna – Honestidade a Prova

Nove horas e vinte e cinco minutos, apenas um cliente que olhava nas prateleiras do pequeno mercado em busca de uma lata de achocolatado. O dono bocejava no caixa lendo um jornal de São Paulo, aliás, lendo é força de expressão, ele olhava as fotos de biquínis de umas garotas que concorriam ao concurso de miss. O sol estava lerdo como costumava dizer o próprio comerciante que era baiano de Feira de Santana, tanto que seus raios precipitavam pela porta e eram cortados por alguma sombra que vinha da rua. O cliente olhava os preços e maldizia baixinho, achava caro, mas não compensava pagar ônibus ou pedalar a bicicleta alguns quilômetros em busca de oferta. De repente o proprietário vendo que a tranquilidade permitia, levantou-se e foi até o banheiro, mas antes disse ao cliente que pudesse escolher a vontade, pois não demoraria. Neste momento o cliente que era meio honesto, resolveu tirar esta metade de honestidade fora e levar sem ônus algum o achocolatado que estava lhe custando parte expressiva do seu ganho como “orelha seca” na construção civil. Abriu uma sacola e colocou um pote, viu que chocolate com Neston era uma boa e pegou uma lata, na frente estavam às frutas e pensou que banana com neston era melhor ainda, mais a frente tinha o açougue e uma peça de contrafilé parecia implorar que a carregasse, ele obedeceu e jogou tudo na bolsa. Antes de prosseguir devo apresentá-lo, com prazer seu nome era Trocadisco, estranho, mas estava na certidão e nascimento e a origem deste nome é a cachaça do pai que ficava mais saborosa com as musicas de Milionário e José Rico ouvidas nos Toca-discos que fora roubado por uma cigana que passara lendo a sorte, com o desgosto o homem homenageara o primeiro filho que já estava com trinta e seis anos. Trocadisco saiu naquela manhã com o dinheiro de pagar a luz, fazer a feira e pagar o carnê da televisão e do celular comprado para a filha no aniversário, ali no mercadinho com aquele descuido do proprietário ele fazia as contas, a feira sairia de graça e o dinheiro ele tomaria seus goles lá na “casa das meninas do rabo-quente”. Olhava para o rumo do banheiro e nenhum movimento de saída do proprietário e lá foi ele no pacote do melhor arroz, seria a primeira vez, já que comiam do mais barato e mais quebrado, feijão de primeira, macarrão, óleo de girassol e por ultimo uma garrafa de seleta. A sacola estava tão cheia que precisou roubar outra, duas sacolas com os melhores itens, sorriso largo por ter se dado bem. Assim foi saindo de fininho fugindo da linha de vista do proprietário que estava confiante de que seu cliente prestara-lhe o favor de olhar o estabelecimento. De repente quando Trocadisco estava a um passo da porta uma viatura da ROTAM para em frente, abre as portas com quatro homens de armas na mão e ódio nos olhos, com o barulho o proprietário veio ao encontro, os policiais receberam uma denuncia anônima de roubo e queriam vasculhar, já que o ladrão não estava ali. Com educação truculenta pediram que o freguês pagasse a conta e fosse embora para evitar perigo. Trocadisco perdera momentaneamente o sangue das faces, um suor lhe escorreu pelo meio das costas deslizando em um fio até a entrada que separa as nadegas, tinha que pagar. Devolver tudo lhe deixaria como suspeito, e, ser preso não estava nos seus planos. Sem ter o que fazer, foi se arrastando com as sacolas pesadas de compra de gente rica e outro peso na cabeça sem saber o que fazer com as outras contas. Luz, feira e o carnê do celular da filha, ali teria que comprar apenas um achocolatado para o filho menor que não toma leite puro. Ao receber o valor da conta digitada insistentemente pela calculadora do caixa quase foi ao chão, o valor era maior do que o que tinha no bolso, mas por medo da policia pegou o do aluguel que estava em outro bolso e entregou metade. No final recebeu um elogio do proprietário dizendo que havia lhe testado ficando no banheiro de propósito, que lhe abraçou parabenizando pela honestidade. – Sua esposa com certeza tem muito orgulho do senhor. Com voz quase inaudível Trocadisco respondeu tremendo; – Claro, e hoje terá ainda mais.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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