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Coluna – As redes sociais e a geração de idiotas

Há uma pequena história de autor desconhecido, aqui retratada livremente à guisa de introdução, que bem reflete a essência deste texto: Penas Espalhadas ao Vento.

Apresentada em variadas versões, a síntese da história é a que se segue: Certo homem percorreu a cidade caluniando um velho sábio. Mais tarde, o caluniador deu conta do dano que havia causado com sua conduta insensata. Assim, dirigiu-se ao sábio para pedir perdão, prontificando-se a fazer qualquer coisa para reparar o mal cometido. O sábio, entretanto, só tinha um pedido a fazer: que o caluniador apanhasse um travesseiro repleto de penas e o abrisse, espalhando-as ao vento. Embora intrigado com o pedido, o caluniador fez o que lhe fora solicitado. Tempos depois, voltou a falar com o sábio:

– Estou perdoado? Perguntou.

– Antes de dar-te o meu perdão, vá e ajunte todas as penas lançadas, respondeu o sábio.

– Mas como?O vento já as espalhou, afirmou o caluniador.

Reparar o dano causado pelas palavras é tão difícil como recolher todas as penas! A lição é clara: uma vez proferidas, as palavras não podem ser recuperadas, e talvez seja impossível sanar o mal causado. Imaginem então a extrema gravidade causada pela divulgação de imagens ou comentários maldosos, alguns criminosos, publicados nas redes sociais. Quero aqui chamar a atenção para este ponto em especial, particularmente para a geração de jovens que abandonam a beleza do convívio em comunidade para o isolamento causado pelas redes sociais, sem qualquer valoração ética sobre o conteúdo propagado.  

É de impressionar a rapidez com que as informações são espalhadas. O mais impressionante, entretanto, está no conteúdo do que é difundido. Ninguém mais se assusta com cenas de nudez e ou sexo explícito. Agora, são divulgadas imagens de jovens assassinadas, no cenário do crime ou ?dentro do caixão?, adultos esquartejados, crianças espancadas, acidentes ?espetaculares?, já não mais importando se as vítimas precisam ou não de ajuda. O ?top do momento? é o registro do fato, não o imediato auxílio àquele miserável premido à terrível condição de vida. Justamente no momento mais dramático de sua existência.

Quanta futilidade!Explícito decreto de pena de morte à ética e aos valores morais! Fico a imaginar a família dos que ficam nesta terra. De minha parte, embora as receba, por ser inevitável, devido à insensibilidade de pessoas próximas, não encaminho para ninguém quaisquer palavras, imagens ou situações que possam, cada vez mais, vulnerar o frágil ser humano.

O poeta e ensaísta cubano José Julian Martí dizia que ?a liberdade é muito cara e é preciso resignarmo-nos a viver sem ela, ou então a pagar-lhe o preço?. Recentemente, procurado por uma diretora pedagógica preocupada com ?o preço da liberdade? dos alunos, apresentei-lhe algumas rápidas orientações escritas para evitar problemas com o uso da internet. Justamente eu que, parafraseando o argentino José Luis Borges, em O credo de um Poeta, ?sou essencialmente um leitor que se aventurou pelos caminhos da escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta ? porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever?.

A internet e os computadores têm um caráter instrumental que não pode ser esquecido; instrumento, entretanto, não é o objetivo em si mesmo, senão ferramenta para outra realidade. Por isso, há um ditado atribuído aos chineses que diz: ?Quando se aponta a lua, bela e brilhante, o tolo olha atentamente a ponta do próprio dedo?.

Criadas com o propósito de facilitar a interação entre as pessoas e proporcionar meios diferentes e interessantes de diversão, as redes sociais têm tido o seu sentido depauperado.  A ideia de que as coisas são como são e não há outro modo delas serem, relegando bilhões de pessoas ao terreno fértil da conformidade e da subserviência, está equivocada. É preciso muita atenção de todos nós. Construir uma realidade que seja diferente. Afinal, como diria Albert Einstein, ?eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas?.

Já somos dessa geração ou ela ainda está por vir? Lego aqui um momento para reflexão.

Por Marcelo Eduardo Freitas –  Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Marcelo Eduardo Freitas
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