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Coluna – Escola Modelo

Se não fossem duas carteiras vazias, a sala estaria com sua lotação máxima. Mas nada sério que pudesse impedir a professora de fazer com que seu planejamento corriqueiro fosse desenvolvido como de costume. O problema é que ao abrir a grande bolsa de maquiagens com  cigarros, isqueiro, apagador, pinceis atômicos, lápis  preto e de cores, assim como vários livros que nem mesmo a própria sabia o que faziam ali, viu que havia esquecido o seu plano de aula em casa. E agora o que faria? Perguntou  ela aos seus interiores tendo um leve arrepio nos pelos do braço, que chegaram  com uma onda de calor naqueles dezoito graus de agosto atípico. Andou de um lado para o outro com a mão no queixo, coçou os cabelos recém-pintados e nada vinha de acolhedor. Até que se lembrou de algo dinâmico que já experimentara,  reuniria todos em circulo para saber sobre a vida familiar, quem eram  os pais e como se comportam os alunos além dos muros da escola. É prudente lembrar que aquela escola fora contemplada com o prêmio de modelo, por ter programas que desviava  os adolescentes  da  marginalidade e faziam com que os  pais fossem comprometidos com a evolução educacional dos filhos. Isto no papel é claro, pois a Diretora Rosenira Abracauntes embolsara o premio em dinheiro forjando todos os documentos. Mas isto a Professora não sabia, era substituta, uma vez que a titular gozava licença maternidade, por coincidência o Conselho que dera o titulo a escola chegava   por ali, justo naquele dia e por sorteio saiu àquela sala. A diretora desconsertada não tinha como dar sinal para a discente, chama-la para um particular naquelas alturas geraria desconfiança e o regulamento não aceitava, o jeito foi acatar  o velho clichê “cortando prego”. Mas ao mesmo tempo dava alivio saber que tudo que se ensinava em sala era literalmente visto e revisto por ela e uma equipe pedagógica movida pela venalidade. Surpresas a parte o Conselho composto por dois senhores e uma senhora carrancudos e papeis na mão entrou na sala acompanhado pela Diretora que de acordo o regulamento teria que apresenta-los como amigos da escola. Tranquila a Professora pediu que todos se acomodassem e explicou o motivo das cadeiras em circulo, ao falar do tal conhecimento a Diretora sentiu uma agulhada lhe varar o rim, tirou o pigarro repetidas vezes, tentou chamar a atenção, mas só conseguiu um olhar reprovador de um dos conselheiros. Ana Maria tinha treze anos, mascava chicletes em todas as aulas e fumava nos intervalos de uma disciplina para a outra. No recreio tomava uma lata de cerveja e fumava um cigarro de maconha. A Diretora sentiu outra espetada, desta vez lhe parecia uma chave de fenda torcendo um parafuso nos  ossos do seu crânio, mexeu-se na cadeira, olhou para a Professora, mas só conseguiu o olhar reprovador de uma das conselheiras. A pergunta dirigida a garota era sobre a convivência familiar e sua vida fora dos muros da escola. Papéis com agilidade e canetas nas mãos os Conselheiros se prepararam. Ana Maria primeiro queria saber se algum daqueles eram Tiras, ou se conheciam algum. “Se tá limpo então vou falar”, assim começou a aluna, que disse ter um namorado que está preso por trafico de drogas e que sonha se casar com ele quando for libertado, ao perguntarem sobre o tempo de prisão que ele ainda tem, ela respondeu com firmeza que são trinta, mas por bom comportamento em dez, no máximo doze ele está na rua. Ainda confessou que se prostitui com a mãe na casa de uma tia que também é prostituta. A Diretora apertava os pulsos para sentir  se  ainda estava viva e enxugou um suor frio que escorreu da testa, os Conselheiros entreolhavam-se, a Professora aplaudia a sinceridade da menina. Um dos Conselheiros que se dizia novamente  amigo da Escola perguntou se por acaso estes relatos não abalariam  a reputação da escola modelo, um aluno com cara de surfista com percing na sobrancelha direita disse que a Diretora sempre diz  para eles que quem poderia saber as verdades era só os amigos da escola, que nas visitas dos Conselheiros todos ganhavam folgas sem faltas na caderneta. 

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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