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Com ajuda das abelhas, Minas pode mudar tratamento da mucosite no mundo

É com a ajuda das abelhas que Minas pode mudar a forma como o mundo trata a mucosite, uma das principais complicações em pessoas submetidas à radioterapia na cabeça e no pescoço. Gel à base de própolis verde desenvolvido pela UFMG e uma farmácia ajuda não só a prevenir como a curar a doença, que causa lesões na parte interna da boca. Em grau severo, o paciente fica sujeito à infecção generalizada, com risco de morte.

Nas patas, a própolis verde: mistura de saliva com néctar, resina de plantas e restos de brotos
Nas patas, a própolis verde: mistura de saliva com néctar, resina de plantas e restos de brotos

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A eficácia do produto 100% natural e sem contraindicações será publicada este mês no Journal of Clinical Pharmacology, revista da comunidade científica internacional.

Mas os pesquisadores não estão de braços cruzados esperando a divulgação do artigo. Já finalizam outro trabalho mostrando que, no grupo de voluntários analisados, os efeitos do gel foram melhores do que os do medicamento sintético tradicionalmente usado na Europa para o mesmo fim.

A conclusão faz parte da tese de doutorado do cirurgião-dentista e professor Vladimir Noronha. Ele explica que a mucosite é classificada de zero (mais branda) a quatro (mais severa).

Ao comparar pacientes de grau 2 tratados com o produto natural com outros que recorreram ao anti-inflamatório padrão, ele descobriu que os resultados eram parecidos até determinada etapa do tratamento. A partir daí, o gel de própolis verde diminuía consideravelmente a seriedade das feridas.

“Significa que a pessoa tem um conforto maior ao longo da radioterapia usando o gel”, diz. Além disso, a maioria dos indivíduos submetidos ao teste teve a doença nos graus zero e um, mais leves.

EXTENSA

A lista de benefícios é maior. O produto só não é recomendado para pessoas alérgicas à própolis, 0,1% da população. Também dá conta de eliminar sozinho a maioria esmagadora dos micróbios da boca, dispensando a combinação com outros remédios, como antifúngicos – às vezes necessários para complementar a terapia com o remédio padrão.

“Isso reduz os gastos para o paciente e o governo”, diz o orientador do trabalho e idealizador do uso da própolis verde para prevenir a mucosite, professor Vagner Rodrigues Santos.

Além disso, o gel não interfere nos efeitos de outras drogas para tratar o câncer em si. “E é mais barato que o medicamento convencional”, completa Vladimir.

Em busca de aval para indicação médica

Liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o gel à base de própolis verde já é fabricado e vendido no Brasil e exportado para Estados Unidos, Japão, França e Grécia, mas como produto de higiene bucal, uma espécie de creme dental premium.

A indicação como remédio e a eventual mudança no protocolo internacional de tratamento da mucosite dependem de uma nova fase da pesquisa, em que um número bem maior de pacientes, que pode chegar a 400 pessoas, seja avaliado.

“Que funciona, já sabemos. Mas será que também para muita gente? É o que a comunidade científica internacional quer saber”, diz Vladimir Noronha, professor do Centro Universitário Newton Paiva.
A fase 3 do estudo é a última e pode levar de quatro a cinco anos. Também servirá para constatar a aceitação do produto diante do público, ou seja, se quem usou o gel o recomendaria a outras pessoas.

Mas há chance de que o prazo diminua, caso trabalhos na área, de outros autores, cheguem a conclusões semelhantes. Segundo Vladimir, pesquisadores japoneses demonstraram interesse em repetir a análise comparativa feita aqui para ver se os resultados se repetirão na terra do sol nascente.

Ouro verde contra micro-organismos

A própolis verde não foi escolhida à toa para ser testada no combate à mucosite. Mestre em microbiologia, doutor em patologia bucal e pós-doutor em farmacologia clínica, o professor da UFMG Vagner Rodrigues Santos diz que o “ouro” das abelhas é rico em flavonoides, pigmentos que ativam o sistema imune, e tem mais de 400 componentes químicos que juntos têm propriedades cicatrizante, anti-inflamatória e antimicrobiana. “É difícil os micro-organismos resistirem”, explica.

Todo esse “poder” está por trás dos bons resultados obtidos com o gel. Pacientes com câncer na cabeça ou no pescoço submetidos à radioterapia deixam de produzir saliva, antibiótico natural contra milhões de gêneros de bactérias que temos na cavidade oral.

Com a boca seca, a simples fricção da mucosa – gengiva, palato, língua e parte de dentro dos lábios e bochechas – contra os dentes causa feridas, abrindo caminho para inflamações – a mucosite. A pessoa ainda pode ter candidose, causada por fungos oportunistas. Além disso, enfrentará dificuldade para falar e comer.

SALIVA DE VOLTA

O gel não só extermina boa parte dos micro-organismos como lubrifica a mucosa. “A própolis tem sabor e cheiro muito fortes, então ativa a salivação. O paciente retoma a qualidade de vida”, diz o professor da UFMG, que pesquisa o assunto desde 1997. O ideal é que a pessoa comece a usar a fórmula na véspera da primeira sessão de radioterapia, para prevenir as complicações.

Diretor da Pharma Néctar, parceira no desenvolvimento do produto, José Alexandre Silva de Abreu diz que 8 milhões de pessoas no mundo têm câncer na cabeça ou pescoço a cada ano.

Oitenta por cento terão mucosite ou candidose, e 16% delas precisarão ser internadas – o que mostra a importância de se prevenir e tratar as complicações. Há dois meses, o gel recebeu o prêmio Brasil Beyond na área de biotecnologia.

Tratamento dentário de graça na UFMG

Passar por um check-up dentário antes de se submeter à primeira sessão de radioterapia é um cuidado muitas vezes ignorado por quem acaba de descobrir um câncer na cabeça ou pescoço – de língua, esôfago, boca ou tireoide, dentre outros.

É que a radiação diminui a oxigenação e o fluxo sanguíneo para o osso, o que pode levar à necrose se a pessoa precisar de uma intervenção odontológica maior, como a extração de um dente.

“Por isso, a Organização Mundial de Saúde recomenda que os pacientes irradiados só enfrentem uma cirurgia cinco anos após a radioterapia”, explica Vagner Rodrigues Santos. Com o professor Luís Cláudio Noman Ferreira, ele coordena a Clínica de Oncologia da Faculdade de Odontologia da UFMG.

A unidade oferece tratamento dentário gratuito, pelo SUS, para esses pacientes. Se a pessoa já tiver passado pela terapia contra o tumor, também receberá atendimento especial, para evitar complicações. “Entramos com o antibiótico e fazemos todo o acompanhamento”.

Não é necessário agendar a primeira visita à clínica, que funciona às sextas-feiras, das 13 às 17h, inclusive nas férias. Basta ir ao local, levando informações do oncologista e quando será a sessão de radioterapia.

O serviço de oncologia funciona na Clínica 3 da Faculdade de Odontologia, a segunda para quem entra no campus Pampulha da UFMG pelo portão perto da Usiminas. A linha de ônibus é a 5102 (Santo Antônio). Informações: (31) 3409 2400.

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