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Coluna – Rios, unidos, ameaçam inundar o Brasil

Quando chegamos ao Rio Itacambiruçu, em Grão Mogol, logo ouvimos murmúrios. Não sabíamos de onde vinham. A princípio, achamos se tratar de vozes. Vozes de pessoas agrupadas. Gemidos uníssonos de uma multidão. Algo do tipo. Não. Não eram vozes humanas.

Suspeitamos, também, do Vento. Não seriam vozes trazidas pelo Vento impetuoso, ele que sopra em todas as direções sem nos dar a menor pista de onde vem e pra onde vai? Perguntamo-nos. Ou, quem sabe, não seria a voz do próprio Vento querendo nos dizer alguma coisa? Não. Não era.

Perscrutamos mais. Espichamos os ouvidos e com as mãos em conchas nas orelhas, enfim, descobrimos o que era. Eram as vozes das águas do Rio Itacambiruçu reunidas em protesto permanente daqui pra frente contra a apatia, a inércia, o descaso e outras impropriedades mais que nos impedem de tomar atitude para de fato salvar o Rio São Francisco, que “cortou poço” na altura de Pirapora/Buritizeiro. Está numa secura de fazer dó. Dó de nós mesmos.

Há décadas denunciamos, alertamos, mostramos preto no branco e em cores as agressões ao Rio São Francisco. Isto que se deu na altura de Pirapora/Buritizeiro poderá acontecer com o rio por inteiro até 2030, conforme previsão de pesquisadores. E nós lemos, nós ouvimos, nós vemos e nada fazemos para mudar o quadro lastimável, deplorável.

Enquanto isto, a canalha de políticos atua nadando de braçada nos rios do dinheiro público. E eles ainda posam de celebridades e fazem caras de escárnio porque ocupam posições de decisão tanto no Executivo como no Legislativo, jogando mais pás de lama no já enlameado poleiro. E nós continuamos inertes, apáticos, mesmo tendo a possibilidade de mudar tudo nas eleições de outubro.

Enquanto rios de dinheiro saem pelos ladrões da Petrobras. E os nomes deles são publicados, o Brasil e o mundo tomam conhecimento de mais essa vergonha nacional; e nós sabemos que todos são reincidentes na mesma roubalheira e nós continuamos aqui, inertes, vendo tudo isto. E assistimos o Rio São Francisco, o “Rio da Integração Nacional” morrer à míngua a sua última morte.

Foi preciso o Rio Itacambiruçu reagir, daqui de Grão Mogol, Cidade Diamante chamada – diamante em processo de lapidação. Rio revolto como o encontramos em determinados pontos, ele conclamava os rios de todas as bacias brasileiras e da América do Sul para, juntos, iniciarem uma reação tendo em vista o período das águas que se inicia, a fim de salvar o irmão rio da morte. Morte iminente.

“Se as gentes humanas se omitem, cabe a nós mesmos tomarmos uma atitude, “em legítima defesa putativa”; os tribunais do mundo inteiro irão decidir jurídica e criminalmente com base nessa premissa”, concluíram os rios enquanto suas águas revoltas rolavam corredeiras e cachoeiras abaixo, rumo ao mar.

Vários rios fizeram uso da palavra, mas a fala mais contundente foi proferida pelo Rio Verde Grande, afluente do Rio São Francisco. O Verde Grande, que em 1987 foi “roubado” por um empresário, que instalou nele 11 pivôs centrais de 500m de raio e o fez secar pela primeira vez, disse alto e em bom som e tom: “Meus amigos, todos nós fomos usados, explorados, roubados, contaminados ao longo da nossa vida, mas o que fazem com o nosso irmão maior, o Rio São Francisco, é uma impiedade sem tamanho; essa gente humana, imediatista, cava a própria sepultura”.

E o Rio Verde Grande lançou uma frase de ordem: “Rios, unidos, podem inundar o Brasil”.

Foi quando o Rio Itacambiruçu deu a ideia de estender o protesto ao mundo inteiro, de modo a envolver todas as Organizações Não Governamentais, Ongs chamadas, principalmente o Greenpeace, que tem atuação forte no mundo inteiro. “Se o Greenpeace assumir a defesa do Rio São Francisco, essa gente humana vai ver o que é bom pra tosse”, disse o Rio Gorutuba, de Janaúba.

E assim o Rio Itacambiruçu lançou ao mundo o “Protesto Internacional Contra as Agressões ao Rio São Francisco”. Quem aderir assine embaixo. Faça alguma coisa, entre nessa correnteza dos rios, este movimento político, apartidário, para salvar o grande rio da morte iminente. “Antes tarde do que mais tarde”, disse o Itacambiruçu, com o seu jeito itacambiruçuzense de dizer as coisas, soltando um repentino estrondo d’água. “Katabrummm…”

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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