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Coluna – Trezentos e quatro

Para vencer o ultimo degrau que chegaria ao derradeiro andar, Charlene parou um instante e respirou com desanimo. Colocou a mão no peito e mais uma vez prometeu que deixaria o cigarro, a sacola plástica dependurada nas mãos parecia ter triplicado o peso da entrada até a sobreposição da escadaria. Resmungava contra o Sindico que prometera consertar o elevador, mas por estar no fim do mandato e saber que os resultados seriam desfavoráveis as suas pretensões, queria que todos se lascassem. Embaixo da porta do 304 um envelope com carimbo da justiça se mostrava quase inteiro do lado de fora, o que atiçou a curiosidade dela por saber que constantemente aquela mulher sardenta que não olhava no rosto das pessoas, era espancada pelo gordo com cara de Chef de cozinha, que ao contrário da esposa olhava com sorriso cínico cumprimentando todo mundo. Antes de agachar para apanhar o envelope ruídos de passos apressados desviaram sua atenção para o corredor do lado, que trouxe o entregador de Jornais correndo com olhos de pavor e as folhas se soltando dos cadernos desordenadamente. Paralisada com aquela cena atípica Charlene pensou apenas em fazer o sinal da cruz e correr para onde houvesse explicação. O barulho dos passos do rapaz que normalmente lhe ofertava galanteios de “Tiazona gostosa” soaram perseguidos por um forte bate da porta de entrada do prédio. Simultaneamente, o envelope do 304 foi puxado e um grito da mulher sardenta ecoou com choro, no susto a sacola se desprendeu da sua mão e uma abobora rolou escada abaixo, enquanto o vidro de azeitonas se partiu no cimento espalhando a fruta pelo chão e cacos se perderam por baixo daquela porta de onde saiam gritos. De repente o corredor de onde viera assombrado o Jornaleiro, um cão furioso latia, outros cães se deram também por latir naquela direção, Charlene conseguiu se desfazer daquele visgo medonho que lhe colava, porém a coragem não vinha e a sensação de sombra andar pelas paredes aumentava dentro da sua cabeça, a mulher sardenta do 304 pediu pelo amor de Deus que não a matasse, mas o homem Gordo quebrava copos, batia sobre a mesa e não dizia nada na altura de ser ouvido por ela. Charlene chamou pelo porteiro, apertou a campainha do 303 seguidamente, mas só alguns minutos depois se lembrou de que morava sozinha e aquela era sua casa. Os cães pareciam devorar alguém que a exemplo da mulher sardenta pedia para não morrer, um barulho de tiro, e o silencio no 304. Mas os cães continuavam seus sacrifícios, agora parecia criança que gritava mamãe, gritava que não lhes mordessem, até se calarem num silencio infernal.  As portas do segundo andar batiam e voltavam a bater, como se um vento cruel e demoníaco tivesse tomado conta de todas as casas e as pessoas não existissem mais, o porteiro bem que tentou alertar Charlene que não sabia onde deixara as chaves, vindo daquele corredor com sua prancheta na mão e a caneta atrás da orelha esquerda, porém um dos olhos estava dilacerado e escorria um liquido branco junto ao sangue pisado. O braço direito fora arrancado e seu corpo prostrou-se diante do 304. Sem ter como abrir a porta Charlene pensou em descer as escadas retirando os sapatos sorrateiramente, chorando com suspiros fortes e um pavor que não se podia descrever. O celular tocou no bolso, mas ela ignorou e pisou o primeiro degrau para a fuga daquele pesadelo, o celular insistente chamava, e sua mão tremula tentavam segurar as grades de proteção da escada. Na terceira chamada uma voz cavernosa gritou mesmo sem ser aceita a chamada, e da porta do 304 a mulher sardenta saiu com um furo na cabeça sangrando e pedindo uma moeda para atravessar o rio, enquanto daquele corredor surgia um enorme cão de três cabeças e dentes feito punhais de prata, rosnando para aquela mulher. Charlene despencou-se pelo vão que acompanhava  a escada, desceu se mutilando nas pontas dos ferros adornados. Cerberus era o nome daquele cão maldito que deixava ser montado por um esqueleto de vestes negras de nome Caronte. 

Por Adilosn Cardoso

Adilson Cardoso
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