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Sarney em versão aposentada busca manter relevância

Figura dominante da política nacional desde que governou o Maranhão na década de 1960, o senador e ex-presidente da República José Sarney (PMDB), de 84 anos, entrou na campanha deste ano vivendo um período de declínio. Essa “baixa” ficou evidente na última semana, quando Sarney tentou intervir no debate da eleição presidencial. Ele criticou seus aliados Lula e Dilma Rousseff. Disse que o PT corre o risco de perder a eleição e que Lula parece ter perdido a “aura de invencibilidade”. Também bateu em Marina Silva (PSB), afirmando que ela “tem cara de santinha”, mas é “radical” e “raivosa”. As declarações em nada mudaram o cenário da disputa.

Sarney não tem um herdeiro para substituí-lo após a aposentadoria - ele diz que deixará a vida pública em janeiro de 2015
Sarney não tem um herdeiro para substituí-lo após a aposentadoria – ele diz que deixará a vida pública em janeiro de 2015

O declínio do patriarca começa no local onde ele se projetou para a política. O ex-presidente entrou na eleição maranhense deste ano apoiando o segundo colocado nas pesquisas, Edison Lobão Filho (PMDB), e sem a perspectiva de, mesmo em eleições futuras, ver um parente reassumir o governo estadual.

Sarney não tem um herdeiro para substituí-lo após a aposentadoria – ele diz que deixará a vida pública em janeiro de 2015. Sua filha, a atual governadora Roseana (PMDB), foi reeleita em 2010 e não pôde disputar o cargo de novo. Depois de especulações sobre tentar o Senado, ela anunciou que, como o pai vai se aposentar após terminar o atual mandato, em dezembro.

Os outros filhos do ex-presidente são o deputado federal Zeca (PV-MA) e o empresário Fernando. Mas uma rara convergência entre aliados e adversários de Sarney é a certeza de que nenhum dos filhos tem condição de assumir o lugar do pai. Um sempre se dedicou mais à carreira política em Brasília. O outro se tornou o homem forte dos negócios da família.

Políticos que estiveram com Sarney por décadas aguardam a chance de ocupar o espaço deixado por ele. Um dos primeiros da fila é o ministro de Minas e Energia e também ex-governador do Maranhão, Edison Lobão (PMDB), que emplacou seu filho como candidato do grupo “sarneyzista” neste ano.

“Edison Lobão pai era o candidato natural do grupo. Não foi candidato porque teve problema de saúde”, diz o deputado Chiquinho Escórcio (PMDB-MA), um dos principais auxiliares de Sarney. O senador Lobão Filho foi escolhido, segundo Escórcio, porque pesquisas do partido indicavam sua viabilidade. Também foram cogitadas, diz o deputado, as candidaturas do ex-ministro Gastão Vieira e do presidente da Assembleia Legislativa, Arnaldo Melo.

A escolha de Lobinho – como é conhecido o candidato em sua terra natal – acabou tornando a situação eleitoral de Sarney ainda mais frágil. No meio da campanha, a revista Veja publicou reportagens ligando não apenas a família Sarney, mas também Lobão pai ao esquema de corrupção montado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef. Segundo a publicação, Costa citou Roseana e o ministro entre os políticos beneficiados pelo esquema.

A relação entre o grupo de Sarney com Costa e Youssef passou a ser usada no discurso do candidato oposicionista, Flávio Dino (PC do B), ex-deputado federal que está em primeiro nas pesquisas de intenção de voto e pode até vencer no 1.º turno.

No debate entre Dino e Lobão Filho promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Maranhão, o assunto foi mote de diversas rodas de conversa paralela. “Ele está foragido”, disse o deputado Domingos Dutra (SDD-MA), sobre a ausência de Lobão pai no debate. Coube ao candidato defender o pai. Indagado pelo Estado sobre as acusações, Lobinho disse: “Nunca houve esse episódio. É inteiramente falacioso.”

Após Lobão ser envolvido no escândalo, o PT, que entrou formalmente na coligação de Lobinho, enviou adesivos da presidente Dilma Rousseff ao lado de Flávio Dino para manifestar apoio ao candidato do PCdoB. Um dia depois, a própria presidente da República confirmou a legitimidade do material. “Eu mandei porque o Flávio Dino me apoia. Há adesivos para todos os candidatos que me apoiam”, afirmou Dilma em entrevista coletiva.

O candidato de Sarney poderia ter sido outro. Até o início do ano, Roseana tentou viabilizar o peemedebista Luís Fernando Silva, ex-secretário da Casa Civil e de Infraestrutura. Mas, por ser próximo da família de Jorge Murad, marido da governadora, ele teve receio de perder influência em outras alas do PMDB.

Assim como tentou entrar no debate da eleição nacional, Sarney também participa de eventos da eleição maranhense, em que manifesta apoio a Lobinho. A depender do resultado das urnas, ele pode ter não apenas perdas políticas, mas também econômicas.

Faz parte do conjunto de promessas de Flávio Dino cortar repasses do governo para o grupo de comunicação de Sarney, que inclui a TV Mirante – retransmissora da Globo. “A TV Mirante vai ter uma participação de acordo com sua importância. Não vou eliminar a TV Mirante porque isso seria perseguição. Mas não vai ter privilégio, como hoje tem”, afirmou Dino. Sarney, Roseana e Edison Lobão não quiseram conceder entrevista ao Estado.

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