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Coluna – Em continência ao cabo Georgino Júnior

A última vez que estive com Georgino Júnior, salvo engano, foi em finais da década de 60, quando fizemos, juntos, o Tiro de Guerra (TG 87) em Montes Claros. Ele era cabo e eu soldado raso. Aliás, até iniciei o curso de cabo, mas devido a uma simples brincadeirinha de jogar pedrinhas nos companheiros durante uma instrução do sargento, e ao ser apanhado em flagrante, fui destituído do curso de cabo e tive de me recolher à minha própria insignificância.

De lá para cá, só tive notícias dele. Soube por exemplo da parceria do amigo com Tino Gomes. Soube também que ele se revelara poeta de pena cheia e também que se mostrara dado a lidar com pinceis e desenhos geniais que o tornaram um dos intelectuais mais vibrantes da minha querida cidade, de onde saí no início da década de 70 para cumprir os impulsos do destino e alguns sonhos sonhados na intimidade do travesseiro.

Sem querer ser pretensioso demais, como gostaria de possuir o dom da ubiquidade – e quem não gostaria? E se possuísse o dom da ubiquidade, confesso com toda sinceridade, me deslocaria num átimo para Montes Claros a fim de abraçar o amigo por sua genialidade na arte de poetar, pintar e desenhar, agora que ele saiu da toca para mostrar toda a sua competência como artista.

Daqui do alto das serras do Maciço do Espinhaço, em Grão Mogol, ouço vozes cantando as maravilhas de Georgino Júnior extraídas do seu talento artístico e me pergunto por que os ditames da vida impediram-me de conviver com pessoas com as quais muito teria a aprender? Vejo as fotos do Júnior, o semblante fechado, sério demais, ele que tudo tem para desabrochar em sorrisos.

Leio o texto sobre ele escrito pela excelente Raquel Mendonça – “Georgino Júnior é isso, não menos que isso: um ser humano inteligentíssimo; super, ultra, mega criativo, enfim, um gênio em toda a acepção da palavra, que navega muito bem entre os mares e os ares estéticos das artes plásticas, ora em tons brancos e pretos, ora multicoloridos do desenho, da pintura, ou da mais densa e intensa literatura!” E fico aqui, sem o dom da ubiquidade, cobrando do destino o porquê de me ter impedido de conviver com o amigo – ele e outros mais, tão montes-clarenses quanto eu, como Tino Gomes – a fim de recolher dele e dos outros, migalhas de talento, de versos e mesmo de reversos, acaso houvesse algum, já que ninguém livre deles está.

Sem asas para voar até Montes Claros, conformo-me com a convivência virtual nesses tempos fortuitos do Facebook, invenção que nos leva a reencontrar amigos. E daqui do meu notebook espio o sucesso de Júnior e pra ele bato palmas, palmas de um cidadão simples. Gostaria de pra ele cantar loas e também para os demais artistas da nossa terra que vejo desabrocharem como o pequizeiro brota do chão árido do sertão e se multiplicam como estrelas da maior grandeza. Estrelas que fariam a alegria de um Darcy Ribeiro, se vivo estivesse no meio de nós.

Se me permitem a expressão, sinto-me privilegiado por ter a vida me dado oportunidade de conviver e aprender com gente, gente humana da melhor qualidade, em Montes Claros, em Belo Horizonte e aqui mesmo, onde as pedras falam e até mesmo gritam para quem tem ouvidos de ouvir e olhos de ver as belezas que o Criador do Universo fez para deleite próprio e nosso.

Sem querer me delongar, preciso confessar, apenas por um momento gostaria de ter a pena do poeta maior para expressar o tom da admiração e a capacidade de torcer pelo sucesso do amigo de caserna. Enquanto ele sai da toca, penetro na minha caverna em busca dos mistérios dessa intrincada terra chamada Grão Mogol, onde parece que Deus cuidou de gastar um pouco mais de tempo para construir.

Obrigado, Júnior, pela nossa convivência virtual. Não vou dizer que me satisfaz porque nesses tempos de internet, se por um lado o mundo ficou pequeno, falta calor humano. Precisamos resgatar a convivência fraternal do convívio pessoal, “antes tarde do que mais tarde”, como diria o amigo Paulo Carvalho, outro de quem eu nutro saudades porque, outra vez falaram mais alto os ditames da vida e tive de deixar Belo Horizonte, assim como deixei Montes Claros, para cumprir meu próprio destino.

P.S.: Senhor cabo, soldado Sena, número 10, deste TG, se apresentando; peço licença para me retirar, senhor. “Meia volta volver!”

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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