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Coluna – Museu no casarão da nossa história

Quem nos idos da década de 60 podia imaginar que o casarão antigo, centenário, onde durante tanto tempo funcionou a Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, em Montes Claros não iria abaixo, como muitos outros foram, e em 2014 seria usado para abrigar o Museu Regional do Norte de Minas?

Certamente ninguém seria capaz de fazer vaticínio semelhante, muito menos ainda quem estudou naquele casarão e o tempo todo sentia a ameaça do forro do teto ruir, como ruiu numa ocasião, felizmente, sem ferir ninguém. Muitos dos ex-colegas de sala de aula vivos estão e podem confirmar o que estava preste a acontecer. A amiga Oselita Barbosa, Lita chamada pode muito bem se lembrar daquela manhã. Ou foi à tarde?!

Estávamos em plena aula de Português. Ou era de história? Não, acho que era de inglês. Não importa, o certo é que de repente a classe toda ouviu um estalido. Crec… Ficamos de sobreaviso e rapidamente saímos de fininho a tempo de ver o forro de um dos cantos da sala cair sobre a mesa do professor. A manutenção do prédio era precária.

Nós tínhamos uma relação íntima, histórica, com o casarão. Da primeira série ginasial até o primeiro ano científico estudamos naquele prédio. Nos fundos ficava a cantina onde podíamos tomar café com leite e sanduíche e preencher o tempo restante do intervalo conversando com um e outro. Éramos jovens com os hormônios e os neurônios em ebulição.

Mas o casarão por onde passaram milhares de pessoas que se formaram na vida e hoje estão em todas as partes do Brasil e do mundo não tinha mais condição de funcionar como escola. Precisava de uma reforma, urgentemente. Não cabia na cabeça de ninguém sequer a imagem da possibilidade de o imóvel ser derrubado. E foi a partir disso que os estudantes da época iniciaram um movimento para construção de um novo prédio.

 Se fizermos uma retrospectiva, o casarão fez parte importante da vida de milhares de pessoas de Montes Claros e região. Olhando pelo retrovisor, numa manhã em que o carro do então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, em visita a Montes Claros, passava pela Praça Dr. Chaves fizemos sinal para parar o veículo e ele ouviu de nós um pedido concedido poucos dias depois: “Governador, dá-nos uma escola nova”. Ele sorriu e fez sinal de positivo com o dedo.

Claro, antes de mostrar o dedo em sinal de positivo a construção da nova escola já deveria ter sido decidida e talvez fosse um dos motivos da visita do governador à cidade. A nova Escola Normal foi construída no alto da Avenida Mestra Fininha, e levou o nome do filho dela (Escola Normal) Professor Darcy Ribeiro. E como não temos notícia alguma sobre como está a situação dela hoje, esperamos esteja operante como foi no passado.

Mas retomando ao tema do casarão antigo, depois de reformado passou por várias fases e pra nossa alegria, vai abrigar agora o Museu Regional do Norte de Minas, uma bela iniciativa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), cujo convite de inauguração neste dia 30 de setembro nós recebemos da pró-reitora de Extensão Marina Ribeiro Queiroz.

Quando funcionava como escola, o piso soalhado, madeira antiga, já muito gasta pelo tempo lembrava o ruído característico de gado transportado em vagões de trem da então Estrada de Ferro Central do Brasil. Os passos dos estudantes ressoavam em ruídos excitantes porque naquela época as moiçolas usavam saias e não tinha pejo de mostrar os joelhos.

A fim de todos se situarem no tempo, os Beathes começavam a eclodir no Reino Unido, a partir de Liverpol. Aqui, no Brasil, a Jovem Guarda iniciava a guarda. Alguma coisa preenchia os espaços vazios da atmosfera mundial e nacional. Politicamente, uma ameaça pairava sobre o Brasil e logo pudemos identificar o que era. Quem tem mais de meio século de existência se recorda como se tudo estivesse acontecendo agora, a propósito das eleições presidenciais. Calaram-se as urnas.

Entre as tábuas do soalho do casarão, em determinados pontos, como a secretaria da escola, em andar superior – tinha-se que subir uma escada – havia algumas frestas, e como naquela época as mulheres não vestiam calça comprida, podia-se ver estrelas multicoloridas em pleno dia. Era só descer à sala de baixo e ficar de papo para o ar à espreita do céu se abrir.

Por Alberto Sena

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