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Coluna – Como Hermenegildo se Tornou Matador

Hermenegildo era gordo desde os 07 anos, tinha cara redonda e apelido de “Cururu”, referencia ao sapo cascudo e asqueroso que aparecia na baixada após as primeiras chuvas. Ainda comia tanto que parecia viver seus últimos dias, com isto os colegas não perdoavam dentro da sala de aula a professora ameaçava “Vocês querem fazer o favor de deixar o coleguinha em paz”. Pouco tempo depois “Ei, q              uer perder a nota da prova quer?!” Não adiantava e lá estava ela a reclamar novamente “Mais uma vez que você bolir com o Cururu, lhe ponho de castigo sobre milho cru!”. Infelizmente até a educadora se perdia e maltratava sem intenção. Hermenegildo contava para sua mãe, mas nada adiantava ela dizia que realmente ele se parecia com o batráquio. O pai falava friamente que aquilo era o cruzamento de uma vaca com um peixe boi, acusando a esposa de tê-lo traído. Hermenegildo ainda era tímido e medroso, tivera o desatino de ao completar 13 anos apaixonar-se pela filha do dono do armazém. O nome dela era Luciete e seus olhos eram verdes, tinha também 13 anos, mas era alta e falava educadamente com mansidão na voz. O comerciante a preparava para estudar medicina na cidade grande e se casar com alguém rico, Hermenegildo continuava gordo e cada vez se parecia mais com o sapo da baixada. Aos completar quinze anos Luciete recebera de presente uma linda festa no melhor clube da cidade, neste dia algumas pessoas com o intuito de zombar do esquisito apaixonado entregara-lhe um bilhete como se fosse assinado por ela “Querido Hermenegildo, hoje na data mais importante da minha vida, quero muito a sua presença onde dançaremos a valsa da debutante. Por favor, não me faça à desfeita de não ir. Um grande beijo. Luciete” Hermenegildo levitara por alguns instantes, lia e relia o bilhete que tinha um cheiro de perfume, acreditava que seria dela. Mas sem dinheiro e sem apoio dos pais, guardava segredo e o bilhete no bolso. E no horário marcado pelo falso papel estava à porta em busca da debutante, seguranças pediram o convite que ele não tinha, porém das suas mãos suadas repassara o bilhete que fora lido por todos que escudavam a porta, até que mandaram chamar pessoalmente a garota que viera acompanhada de um grupo de rapazes e moças, provavelmente os responsáveis pela chacota. Não só fora negado o direito de entrar, como ouvira daquela boca que a valsa seria dançada com um ator global. “Se enxerga sapão!” “Volta para sua lama Cururu!” Estas e outras palavras gritavam no ouvido de Hermenegildo quando o ultimo dos autores daquele bilhete pedia pelo amor de Deus para não ser morto. Haviam se passado oito anos e nenhuma borracha conseguia apagar as dores, no estampido seco do revolver trinta e oito com a mancha de sangue daquele rapaz explodindo na parede, sua pele arrepiava com a lembrança de o olhar de desprezo do seu pai diante dos seus amigos,” só podia ser cruzamento de uma vaca com um peixe boi”. Olhava para aquele corpo, um tênis de marca e um relógio Rolex cintilando no pulso esquerdo. Uma pulseira de ouro e no bolso da jaqueta um cigarro de maconha com a ponta queimada. Na carteira dólares se misturavam a notas altas de reais e uma carteira do Conselho Regional Medicina. Hermenegildo vestiu-se com aquela com a roupa abastada e guardou a carteira sem remorso. Um celular tocou em cima do criado mudo, a musica era agradável e a lembrança do assassino recuara aos tempos iniciais da escola. Luciete era o nome que chamava na tela de luz intermitente, duas, três, quatro, cinco vezes. Até que ele atendesse e ouvisse aquela voz inesquecível que lhe trazia tanta paixão e ódio ao mesmo tempo! “Oi amor, está se escondendo de mim?” Boquiaberto com o peito sangrando da duplicidade de sentidos, respondera trêmulo; “Não amor, você quem se escondeu de mim, mas eu te acho”!

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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