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Coluna – Teste de memória

Outro dia, Jarbas Oliveira, hoje amigo meu virtualmente, mas no passado, na década de 60, amigo de convivência, em Montes Claros, me enviou uma mensagem “in box” pelo Facebook dizendo ter se encontrado com “um amigo seu” (meu), Josimar Oliveira, que me enviava um abraço.

Antes disto, quando Jarbas mandou-me solicitação de amizade, de fato não o reconheci pelo nome nem pela fotografia. Mas foi ele enviar-me a mensagem, fiz as conexões, me recordei do irmão de Josimar, ex-colega de Escola Normal Professor Plínio Ribeiro, na bendita década de 60.

Mas, em vez de me informar de início ser ele, Jarbas, irmão de Josimar, preferiu fazer-me um teste ao conduzir o nosso reencontro via Facebook desta maneira, sem revelar o seu grau de parentesco, o que não deixa de ser uma maneira peculiar. Se intencional, foi criativa.

Ele testou a quantas anda a minha memória, pois desde início dos anos 70 não vejo um nem outro. A partir da mensagem “in box”, quando Jarbas disse ter se encontrado com “Josimar, amigo seu (meu)”, o sobrenome Oliveira denunciou logo o grau de parentesco. Jarbas e Josimar são irmãos. E por que Jarbas não me disse logo isso? Ficou a indagação.

Ontem, enviei mensagem “in box” a ele, nestes termos: “Outro dia, Jarbas, você me falou sobre Josimar, que, acho, é seu irmão. Lembro bem, Josimar tem um irmão com o nome Jarbas. Então fiquei pensando com os meus botões por que você não disse, na ocasião, ser irmão de Josimar? Espero que você e ele estejam bem espiritual, mental e fisicamente. Abraços pra você e ele”.

Hoje Jarbas esclareceu tudo ao responder a minha mensagem: “Eu não disse (que é irmão de Josimar), só para saber se você se lembrava, já que se passaram tantos anos. Estamos todos bem. Josimar está aposentado, mora na fazenda em Nova Esperança. Eu também estou, mas continuo ativo em nosso escritório de contabilidade”.

Convivi com Josimar na adolescência montesclarina. Ele é mais antigo que Jarbas. Ambos moravam com a família na Rua Bocaiúva, quase esquina da Praça Coronel Ribeiro, numa casa em estilo colonial, pintada de bege. Como colega de escola de Josimar, muitas vezes nós íamos e voltávamos juntos. Tínhamos 15 anos. Os hormônios em ebulição e os olhares apreciadores do andar charmoso de determinadas moiçolas.

Foi Josimar que me ensinou a fumar. Foi com cigarro Hollywood sem filtro, porque naquela época os cigarros não tinham filtro.

Se me dão licença, vou contar como foi. Íamos para a escola e ao chegarmos à Praça Dr. Chaves, chamada Praça da Matriz, Josimar deu a ideia:

– “Vamos matar aula?”

Nunca havia matado aula. Se o pessoal lá em casa soubesse que eu havia matado aula ia ser um fuzuê danado. Mas já que estávamos na praça, aproveitamos pra sentar num banco e pensar o que fazer para aproveitar o tempo.

Josimar fumava. Ele sacou do bolso da camisa um maço de cigarros Hollywood, embalagem vermelha, e fez o convite:

– “Quer fumar?”

Eu disse:

– “Não sei fumar”.

E ele:

-“Eu te ensino”.

E me mostrou como devia fazer.

Fiz como ele recomendou, puxei a fumaça, quer dizer, dei a primeira tragada. Quase no mesmo instante fiquei tonto. O mundo parecia girar mais rápido e preferi deitar no banco pra me recuperar da tonteira.

Josimar insistiu. Dei umas três tragadas mais e fiquei zonzo. Depois de recuperado, fomos andando sem lenço, sem documentos, mas com cadernos e livros nas pastas.

Naquela época, era chique fumar. A publicidade em torno do cigarro era vista em revistas e pelo rádio. Fumar, segundo a publicidade, dava “um raro prazer”. O cigarro era vendido como algo de uma “suavidade” impressionante.

Daquela época em diante, com o advento da televisão, os cigarros ganharam espaço no vídeo. Apareciam homens fumando ao lado de mulheres lindas, passando aos telespectadores a ideia de que quem fumava conquistava belas donzelas. Ou senão, conseguia façanhas mil nos esportes.

O tempo passou como flecha lançada pelo arqueiro ao espaço. Houve a mudança para Belo Horizonte, em 1972. Mais de 40 anos depois, a flecha do arqueiro cravou-se numa rocha de Grão Mogol.

Nesse tempo todo, nem notícia tive de Josimar, até Jarbas me reencontrar no Facebook e testar a minha querida memória, eficiente companheira de todas as horas e da vida inteira, até a morte, passagem para a vida, nos separar.

Por Alerto Sena

Alberto Sena
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