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Coluna – Chuvas de Primavera

Seu Antão estava para mais de setenta e cinco anos, a boca murcha e um queixo magro se espichando para baixo lhe dava aparência de um personagem dos tempos de pecados descritos nos filmes bíblicos. Morava com a segunda esposa quinze anos mais jovem que ele, os filhos estavam  todos na cidade, apareciam de vez em quando em época de fartura do milho e  laranja, quando  abarrotavam os carros e desapareciam, O velho resmungava,  chamando-os  de filhos de quenga azeda, mas se desculpava segundos depois e antes que o automóvel se perdesse naquela poeira, estava com o braço esticado fazendo o sinal da cruz para proteger. Numa sexta feira de setembro, já inicio de primavera  deparou-se com dois jovens empurrando um Fiat 147 atolado na terra vermelha da estrada  que parecia lama com cola nos dias de chuvas, colocavam marcha, empurravam e  mudavam a marcha, mas  nada do carro andar. De longe pitando o cigarro de palha molhado no canto da boca, aproximou-se olhando para o céu cinzento e disse que lá para aquelas bandas a chuva já caia forte, se acaso os dois quisessem pernoitar no celeiro não lhes cobraria nada. Com muitos agradecimentos os dois aceitaram,  se apresentando como; Jonas e Gelimar, eram de uma cidade a 150 km ao norte, vieram visitar um amigo e comprar galos para Rinha, porém por falta de sinalização  acabaram se perdendo. A medida que aproximavam da casa a chuva caia com seus pingos grossos, as galinhas já estavam  empoleiradas, as vacas de cabeças baixas ruminavam sem pressa. Um trovão forte assustou um grupo de Cocás que se ajeitavam em baixo do forno de biscoito e um gavião passou rápido mergulhando na mata. A esposa do velho Antão notou alguma coisa diferente nos rapazes e com um olhar de cisma disse ao marido que o sangue não bateu, ele era simples e bondoso, não enxergava isso naquelas criaturas. E a chuva caiu sem tréguas, os filetes passavam em frente da janela aberta como se fossem laminas de vidro, a esposa ralhou que janela aberta com chuva atrai raios para dentro de casa, o teimoso só passou a taramela quando um destes  riscou as nuvens baixas na direção do horizonte. Ao sentar-se a mesa para jantar o maxixe com carne de sol picadinha e sua pimenta malagueta curtida em azeite, dois toques na porta chamaram-lhes a atenção,  fingiram não ouvir,  até outros dois toques soarem mais fortes. Era um dos rapazes que pedia um analgésico  para o colega que tinha crises de enxaqueca, a velha sentiu um calafrio no seu interior e segurou o crucifixo que trazia dependurado  ao pescoço, Seu Antão com  tamanha humildade de falar soprando pela boca murcha, passou a mão alisando alguns fiapos de barbas que despencavam do seu queixo magro. Ao abrir totalmente a porta o hospede empurrou-lhe,  facilitando a entrada do comparsa que vinha logo atrás. Com pouca  destreza  caiu por cima de alguns sacos de milho seco que se desarrumaram pelo chão, os bandidos gritavam que queriam dinheiro ou matariam os dois, atônito sem saber o que fazer seu Antão foi esbofeteado na orelha e caiu novamente sobre os sacos de milhos, a velha que havia se recolhido no quarto para rezar não tinha mais o que fazer se não pedir a Deus o livramento. Mas tinha que ser rápido porque um deles gritou por ela, exigindo  que  aparecesse ou  incendiaria a casa com os dois dentro, lá fora a chuva continuava  forte com  o barulho sobre as telhas enfumaçadas, a velha gritava em silêncio e agora pedia a Deus que não a deixasse sofrer um infarto para que o  marido não ficasse  sozinho. Deus parecia estar ocupado em outras atividades  pois não mandava nada que fosse ajuda para os dois, então aquela senhora no auge dos seus cinquenta e cincos teve um plano audaz,  saiu nua como veio ao mundo correndo como louca para cima deles, o marido assustado e enciumado pensando tratar-se de perda de juizo, esquivou-se e viu os bandidos embasbacados com as performances da velha que faziam os peitos saltarem de um lado para outra sobre a barriga mole e a vagina peluda,  vendo aqueles olhos famintos pela esposa,  em nome da honra, ergueu as mãos ao canto da parede e puxou uma garrucha enferrujada de dois canos, com um tiro só pegou os dois que nem abriram a boca para pedir água, Naquele instante o coração do velho também resolveu dar seu ultimo tiro e trancou-se para sempre. Um dos filhos que coincidentemente chegava para levar o milho presenciou o pai morto na porta de entrada da sala e a mãe nua no meio dos dois bandidos. Paralisado com vários pensamentos mastigando a razão, lembrara de  coisas que o velho  comentava…”Então o pai estava certo…”

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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