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Coluna – Humanos e Desumanos

Na família de três irmãos Justino nasceu diferente. De voz delicada seus passos que lembrava os da mocinha descalça sobre areia quente. O pai, Coronel impiedoso, tinha fama de experimentador das mulheres alheias e perseguidor dos maridos que possuíam aquelas ajeitadinhas como o próprio dizia. Mas Justino era a flor em pessoa, perto de completar sete anos de idade pedira a boneca Barbie como presente de aniversário, os irmãos mais velhos seguindo o exemplo do pai, era rudes e insensíveis, escondiam o irmão quando tinham visitas e o torturava para mudar a postura. Até que certo dia o Coronel contratou um medico psiquiatra daqueles que fazem de acordo o que recebem, para consultar o garoto e dar um laudo informando que se tratava de doente mental. Assim foi feito, em dois dias Justino estava confinado em um Manicômio da cidade, lá dentro misturado aos loucos por patologias da cabeça e aqueles por conveniência da sociedade, chorava copiosamente a falta de casa, chamava pela mãe e era medicado conforme descrito pelo medico. Os anos se passavam lentos e dolorosos, segundo um calendário que mudou naqueles dias ele estava completando uma década de internação. Jamais recebera uma visita, chegavam-lhe roupas e comida, algumas vezes dinheiro para subornar os funcionários quando queria assistir suas novelas e nada mais. Lembrava-se do rosto bonito da mãe, seus olhos cheios de água na sua partida, e o pai severo sem compaixão, os irmãos já apagaram da memória. A cadelinha Zita não poderia se esquecer, era sua confidencial amiga nos tempos de amargura. Com dezoito anos, sonhava com o mundo lá fora, queria conhecer pessoas que não babassem como aqueles que se relacionava diariamente ou que não gritassem daquela maneira histérica, se possível também não tivessem aquele cheiro de sujeira que exalava de alguns. Seu medico já não era o mesmo, tinha olhos cansados, cabelos tingidos de negros para esconder o branqueamento dos anos e andava com dificuldades por culpa de um acidente, de acordo soubera, estava embriagado ao tentar atravessar uma via movimentada.  Logo se aposentaria, mas não lhe assinava o prontuário de alta hospitalar. Questionava do que sofria já que não sentia dor física que lhe impusesse regimes. Mas os termos técnicos usados por ele Justino não conseguia decodificar e os dias não corriam como na rua, as horas pingavam feito conta-gotas numa lentidão indescritível. Conquistara seu espaço, dormia sozinho em uma espécie de quarto jaula, as paredes eram forradas de fotografias recortadas de revistas e jornais que lhe chegavam as mãos. Homens de todas as cores, artistas, pessoas comuns e até pinturas de nu masculino. Sua cama tinha forros de estampas infantis e a cômoda tinha um espelho de retrovisor de moto ao lado de maquiagens. Paquerava  um Psicólogo que visitava o manicômio duas vezes por semana, achava que era amor, mas o homem tinha esposa e filhos.  Em um dos dias do mês de Dezembro daquele ano, soara a noticia da morte do Psiquiatra, havia se matado com uma corda no quintal de casa, Justino não tinha sentimentos para sofrer pelo acontecido. Simplesmente ligou seu radinho de pilha e cantou imitando o inglês do grupo Abba. No dia seguinte pouco depois do café da manhã um incêndio misterioso iniciara-se na dispensa alastrando por todos os quartos e cantos do Hospital, naquela gritaria de pessoas se queimando e objetos explodindo feito bombas de guerra, Ele se aproveitou e vestiu um traje branco saindo como um enfermeiro em pânico para salvar a vida, um nó atravessara no meio da garganta e um choro demasiado bruto lhe fizera berrar feito bode acuado, mas corria ainda assim, olhava para os lados sentia que era perseguido e chorava seu choro demasiadamente bruto, movia a cabeça para todos os lados e corria com pavor. Muito longe de não se sabe aonde queria chegar, sentira um desconforto no peito, uma asfixia que aumentava lhe sugando as forças das pernas, uma tonteira com uma zumbido de latas se batendo no interior o fizera cair. Ao acordar estava amarrado em uma camisa de força, o quarto não era o mesmo, não tinha cama, mas grades e um cheiro insuportável de queimado estava nu sobre uma poça de urina. Do lado de fora o Psiquiatra velava seus atos, acompanhado de dois homens fortes e altos de braços cruzados, paralisados feito estátuas.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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