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Coluna – Herança do Homem

O céu escureceu no horizonte, nuvens carregadas caminharam velozmente na imensidão, um vento frio soprou devagar eriçando os cabelos ralos da velha senhora que observava o movimento com a mão direita sobre os olhos, um trovão explodiu feito dinamite na serra, seguido por um relâmpago que cintilou em forma de artéria ao norte da cidade. Pingos grossos de chuva caíram no chão forrado de lixo, latas de conservas foram sopradas pelo vento que aumentava sua velocidade em direção à metrópole de luzes já acesas, um homem pedalava sua bicicleta com um cigarro nos lábios e a chuva aumentava, pedras de granizo se soltaram do nada atingindo as pessoas que buscavam se esconderem em baixo de marquises, lojas de eletrodomésticos baixaram as portas e os cães sem lares iam e voltavam sem direção. O carro gritou com a buzina, pediu passagem, o outro também tinha pressa, e outros mais queriam sair dali, lá na frente uma enxurrada vinha devolvendo tudo aquilo que jogaram na natureza, no meio da rua formou-se uma barreira de garrafas plásticas, papéis e restos orgânicos, o semáforo se abriu, mas a força da enxurrada fazia com que aquela montanha de dejetos ficasse ainda maior. O vento estava a mais de cem quilômetros por hora, rodopiava no ar e lançava as pedras de granizo como uma gigantesca catapulta, a vidraça do prédio espatifou-se e o alarme do Resgate soou no turvo pavor daquela tarde, as pessoas apressadas saíram de dentro dos seus carros carregando bolsas e arrastando  filhos que choravam por  medo de se afogarem, outro trovão estourou no centro da cidade e um raio desprendeu-se do relâmpago entrando pela janela do prédio de vidraças quebradas, o fogo caminhou rápido naquele espaço de gente que pedia socorro das janelas entre abertas, as sirenes do resgate soaram novamente e o vento não se incomodava com aquilo, destelhou o lava jato que ficava sob um salão de beleza com paredes pintadas de letras vermelhas. O homem audacioso que insistia em pedalar sua bicicleta havia descido na força da enxurrada, cães passavam latindo em despedidas arrastados junto a maquinas de lavar e estofados que se chocavam uns com outros antes de desaparecerem nas águas sujas, um cadáver do instituto medico legal também passou com uma placa grampeada no pé, estava nu e seus olhos estavam abertos, talvez na vã tentativa de olhar para as pessoas se arrependerem dos seus pecados ambientais. O vento não deixava que os Bombeiros erguessem a escada para salvar as pessoas daquele do incêndio, o desespero de uma moça agitando os braços no vigésimo andar se comparava ao golfinho preso na rede predatória do pescador. Alguém se jogou do oitavo andar e desapareceu na enxurrada, o pedaço de um barraco juntou-se aos dejetos que desciam. A igreja evangélica foi destelhada e o bar da esquina desabou sobre o comerciante que dormia bêbado, outro trovão vociferou no caos e o raio eletrocutou o motorista do ônibus que esperava o resgate. Mais lixos se juntavam para entupir os bueiros e as águas aumentaram suas forças, mais um cadáver desceu na enxurrada com a placa grampeada no pé, depois mais outro e as macas do IML. O órgão estava destruído e medico legista salvou-se por pouco, o auxiliar de necropsia estava desaparecido desde que fora acusado de necrofilia. O mundo estava se acabando, dentro da escola a professora reuniu as crianças em um canto seco da sala e abraçou a todos, os pais ligavam intermitentemente, mas não poderiam chegar até lá. Os bueiros não suportaram a pressão do lixo e explodiu ao mesmo tempo, uma cratera gigantesca abriu-se no meio das ruas e foi engolindo tudo; casas, carros, prédios, pessoas e animais e o vento não cessava, a chuva parecia mais forte e um rio de sangue misturou-se as águas turvas. Ninguém dizia nada além de clamar em nome da fé e olhar para o lixo que produziram fazer as montanhas de feições assustadoras  em forma de barreiras.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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