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Aposta com amigos deu início à maior montadora da França

Às vezes, grandes ideias surgem em situações das mais banais. Foi mais ou menos o que aconteceu com o francês Louis Renault. Ele havia construído seu próprio carro, mas só percebeu o potencial do que fizera ao ser desafiado pelos amigos a vencer uma corrida contra outro automóvel. Naquele dia, o resultado foi uma vitória folgada. Nos anos seguintes, foi a criação de uma empresa para explorar comercialmente seu engenho – que gerou a Renault, uma das maiores montadoras do mundo, com 127 mil funcionários e uma receita de quase 41 bilhões de euros em 2013.

 

Louis Renault, ao centro, segura o volante do Voiturette, carro que ele criou e que deu origem a uma das maiores montadoras do mundo
Louis Renault, ao centro, segura o volante do Voiturette, carro que ele criou e que deu origem a uma das maiores montadoras do mundo

Louis Renault foi o quarto de seis filhos de uma família parisiense burguesa (seu pai era dono de um fábrica têxtil). Estudou no famoso Lyceé Condorcet, pelo qual passaram outros grandes nomes, como o escritor Marcel Proust, o antropólogo Claude Lévi-Strauss e um futuro concorrente, André Citroën.

 

Desde cedo, Renault mostrou-se fascinado por mecânica. Frequentemente era visto numa oficina que fabricava carros a vapor, próxima de onde morava, ou mexendo em velhos motores no barracão da segunda casa da família. Conforme foi crescendo, a paixão por automóveis também amadureceu – até que, em 1898, quando tinha apenas 21 anos, montou seu primeiro veículo. Batizou-o de Voiturette.

Foi com essa engenhoca que Louis venceu a aposta de que ganharia uma corrida contra outro automóvel. O segredo, em boa parte, estava num dispositivo até então inédito: um eixo de motor que se articulava a uma caixa de câmbio com três velocidades. O carro do adversário era equipado com tração similar à da correia de bicicleta.

Notando que o veículo era comercialmente promissor, o inventor uniu-se a dois de seus irmãos mais velhos, Marcel e Fernand, que já tinham experiência no negócio do pai, e criou a Renault Frères Company. Inicialmente, os mais velhos é que administravam o negócio – Louis ficava encarregado do design e da fabricação de modelos.

Em 1903, Marcel morreu em um acidente numa corrida de automóveis entre Paris e Madri (Louis, aliás, também competiu, mas só ficou sabendo da fatalidade ao final de uma das etapas da prova). Cinco anos depois, Fernand se aposentou por problemas de saúde, e o jovem finalmente assumiu o controle da empresa.

Inovando na guerra e na paz
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Renault percebeu a falta de munição do Exército francês e disponibilizou suas fábricas para ajudar a suprir essa demanda. Durante o conflito, sua empresa se notabilizou por produzir um dos mais revolucionários tanques da época, o Renault FT. Com espaço para tripulação na frente, motor traseiro e canhão em uma torre giratória, trouxe uma configuração usada até hoje.

No entre guerras, a companhia passou por uma grande expansão graças a inúmeras invenções que saíram de suas fábricas. Entre elas estão os amortecedores hidráulicos, o freio a tambor e a ignição por gás comprimido. A boa fase durou até 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial.

Renault novamente tornou-se um importante fornecedor de armamentos para o Exército francês. No ano seguinte, foi aos Estados Unidos a pedido do governo francês para requisitar tanques aos norte-americanos. Quando retornou à Europa, seu país havia sido ocupado pelos alemães.

Renault viu-se, então, diante de um dilema. Ou cooperava com os alemães na produção de armamentos, o que lhe renderia uma acusação de colaboração com o inimigo, ou resistia e corria o risco ver seus funcionários e equipamentos serem levados para a Alemanha. Ficou com a primeira opção: produziu mais de 34 mil veículos para os nazistas, argumentando que isso evitou que milhares de trabalhadores fossem mandados para campos de concentração.

De herói a vilão em quatro anos
A decisão fez com que Renault se tornasse impopular entre os membros da resistência francesa. Ao mesmo tempo, suas fábricas se tornaram alvo prioritário das ofensivas aéreas inglesas para libertação da França. As acusações e a pressão contra ele foram crescendo até que, em 1944, entregou-se às autoridades francesas com a condição de não ser preso até que fosse formalmente indiciado.

Já bastante doente, morreu em 24 de outubro, apenas quatro semanas depois de se apresentar à Justiça. Em seu testamento, deixava a empresa para seus 40 mil funcionários. Isso, porém, acabou não acontecendo. Em 1945, primeiro líder francês do pós-guerra, o general Charles de Gaulle, nacionalizou a empresa, negando-se a indenizar a mulher e os filhos de Renault, que detinham 95% das ações.

Em 1956, a Renault já era a maior estatal francesa, empregando 51 mil funcionários e fabricando 200 mil automóveis ao ano. Em 1996, foi privatizada, embora o governo francês ainda seja o acionista majoritário (15,01% de suas ações). Desde 1999, opera no mundo todo em parceria com a japonesa Nissan.

No final dos anos 80, começou a participar da Fórmula 1 como fornecedora de motores ou escuderia. Nos últimos quatro anos, teve um desempenho que deixaria Louis orgulhoso de sua aposta centenária: fabricou os motores que levaram a Red Bull e o piloto Sebastian Vettel a vencer o campeonato entre 2010 e 2013.

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