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Coluna – Conversa alheia

Eu tinha apenas dez e poucos anos de nascimento, minha Vó chegara da roça assustada e chamou minha mãe para conversar em segredo. Na sala eu e os outros irmãos tentávamos retirar as orelhas e jogar pela abertura da porta do quarto na expectativa de ouvir alguma coisa, mas era quase impossível já que meu pai estava junto na sala com um olho na televisão e o outro também naquela porta, mas quem têm vizinhos não passa por situações vexatórias de tamanha curiosidade, no momento exato seu Onofre bateu no portão querendo saber se a boa velhinha havia trazido queijo, e não sendo muito incomodo gostaria de uma lasquinha para tomar um café naquela tarde fria de junho. Meu pai envolveu-se com suas desculpas e por lá permaneceu em conversas, surgiu uma garrafa de pinga, um violão e uma viola, dois garotos e uma bola. Tudo perfeito para meus irmãos saírem em disparada para uma “dupla de linha” em um campinho dentro do quintal e eu, elementar meu caro, fui colar os ouvidos na porta. Mas antes tivesse corrido como os outros para o futebol, ou ajudado meu pai na cantoria tocando um triangulo ou chocalho. Pois cheguei a tempo de apenas escutar as ultimas palavras em que minha Vozinha querida que o céu se orgulha em tê-la na confecção de queijos celestiais, dizendo; “E avisou que é para matá-lo no caminho da escola”. Eu perdi o folego, na época diarreia era “piriri” o que fui imediatamente acometido. Sabia do risco iminente, já que tinha que andar quase nove quilômetros todos os dias da Vila Ipiranga até a Escola Normal, no rol de amizades apenas um colega de confiança, zarolho, fraco e desnutrido, era eu quem o amparava nas brigas. Aliás, apanhava para ele, pois sonhava que na fase intermediaria de adulto, seria picado por uma aranha e viveria toda a gloria de Peter Parker, incluindo os beijos de Mary Jane. Nada mais justo que já começar a defesa dos oprimidos. Ali pelo banheiro fiquei algumas horas com o intestino retorcendo de pavor, pensava com sudorese despejando do rosto quem seria meu algoz, chorei sentado no vaso até ser abortado pelo meu pai que esmurrava a porta como de costume. Sai como se nada estivesse acontecendo e disse que a farofa de torresmo não havia feito bem. Às vinte horas após o jantar, minha Vó abraçou-me dizendo que voltaria no dia seguinte, pois precisava preparar algumas coisas urgentes na roça, perguntei no meu pensamento se seria alguma mortalha para criança ou buscar o restante dos parentes para um velório pré-agendado, mas a voz não saiu apenas um nó seco feito um bolo de farinha no feijão estacionara com violência. Minha Vó apertou-me e disse que eu era o neto preferido, eu chorava por saber que nas vésperas da morte as pessoas se tornam especiais e eu não era diferente, apesar de ter passado pimenta nos lábios dos primos pequenos ainda no berço e na borda do vaso a ultima vez que pai me dera uma surra, estava ganhando o perdão e morreria logo. Era angustiante saber que meu fim estava próximo e ninguém fazia nada. Uma noite se passou torturando meus nervos, durante o domingo me tranquei dentro de casa e de mim, sabendo que na segunda tinha aula. Inventei ainda naquela noite que estava com febre e dor de cabeça, mas a bendita vizinha que era enfermeira tinha um desgraçado de um termômetro e descobriu a farsa, meu pai olhou para mim com aquele olhar que tanto conhecíamos e perguntou se queria ir ao medico, antes que o chicote zuasse no lombo milagrosamente me curei e acordei assustado na segunda feira, meu colega aquele inútil, aproveitador dos meus pequenos poderes ainda tinha uma história que vira no Programa Linha Direta de uma mulher que matara a filha do amante para se vingar, meus lábios tremiam e as pernas não queriam sair daquele quintal, como sempre seriam mais de duas horas de caminhada, passando por pessoas desconhecidas de todas as índoles… quem poderia querer matar-me? Olhei para minha mãe com piedade pedindo para ficar, mas a nossa telepatia não se entendeu e fui soprado feito uma personagem de terror dentro do pântano na noite escura. Mas antes que chegássemos ao primeiro quarteirão o carro da policia nos parou informando que alguns bandidos fugiram em um túnel naquela manhã e a recomendação era de que se trancassem em casa até a segunda ordem. Felizes da vida, eu e o colega zarolho nos separamos e para a minha felicidade minha mãe contava ao meu pai sobre a experiência da minha Vó com o cinema, justamente na parte em que a amante do professor diz que seu marido o matará no caminho da escola. Nunca mais quis saber de ouvir a conversa alheia.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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