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Coluna – Deus, Jesus e Dom Pedro lll

O líder dos loucos era Joel. Nenhum daqueles ali do hospício tinha coragem de desacatar suas ordens, sua barba era longa e a cabeça era raspada, andava com uma folha branca para escrever mudanças nos seus planos instantâneos extravagantes. O Psiquiatra até que prescrevera aumento na dose do haloperidol, mas o enfermeiro novato se esquecera de ler o prontuário, deixando assim os pensamentos de Joel com total liberdade para exposições elucubradas. E no meio da noite descobriu que era Deus, visualizou um universo diferente do que viviam e chamou Charles um colega esquizofrênico, com muito trabalho devido ao sono de diazepan, conseguiu acordá-lo e lhe delegar a volta ao planeta terra, tudo estava escrito na folha branca onde não se lia uma só palavra. Jesus precisaria de todos os poderes divinos para atravessar as grades que o separava do resto do mundo, mas infelizmente era problema seu “Deus” estava apenas para ordenar e fiscalizar para que fossem cumpridas suas vontades. O bom Jesus que se preze tem apóstolos e Charles não era diferente do barbudo da Galileia, procurou então por doze oligofrênicos que mal conseguiam falar e no meio da noite começaram a vagar pelos leitos pregando o “Evangelho” suas vestimentas fantasmagóricas assustaram o enfermeiro que cochilava no posto de enfermagem, com o susto o sujeito foi ao chão batendo a cabeça com violência. Um dos “apóstolos” que já tinha intenções maléficas com o moço arrastou-lhe para fora e o amarrou no leito que era seu, Jesus glorificou o ato e fez o sinal cruz. Com a chave do hospício retirada do bolso do jaleco do enfermeiro os apóstolos comandados pelo “filho de Deus” foram abrindo portas e libertando loucos, só não abriram a porta do periculoso canibal que havia arrancado com os dentes parte da orelha do próprio “Jesus”. Chegaram até a rua, os “apóstolos” naquele momento somavam mais de cem, dentre eles havia todos os tipos de doença mental inclusive um degenerado com a Síndrome de Portnoy. Jesus estava radiante no meio da rua, respirava o ar poluído da cidade, mas sabia que não tinha grades lhes fechando, estava tudo maravilhoso, se não aparecesse os cães que eram pretensos donos daquele pedaço, latiram, rosnaram e investiram contra o “Salvador” e seus seguidores, com isto o instinto de salvação falou mais alto e de um por todos, sintetizou-se em; “cada um por si” e Jesus se viu sozinho, abandonado, mas com a graça de não ter cães lhe perseguindo, quando por obra de outro milagre viu surgir de um beco o seu “grande pai” Deus com todo o seu poder irradiando com um cheiro horrível de esgoto, onde havia caído na fuga dos cães. Os dois se abraçaram, sentiram que juntos poderiam reconstruir o grupo perdido, mas Deus era categórico e queria saber o motivo do seu filho não ter usado seus poderes para transformar os animais em pássaros ou coelhos, como fizera com as pedras em pão e a água em vinho. Jesus estava sem resposta, mas prometeu ser mais zeloso quando reencontrasse os apóstolos, aproveitando o papo voltou-se para o criador pedindo que acabasse com o mundo naquela noite e refizesse no outro dia, assim os livraria dos infortúnios da madrugada como um novo ataque de cães ou coisa parecida. Deus recusou-se devido ao seu esgotamento por ter corrido tanto deixando claro que sendo o dono de tudo, não tinha que cumprir ordens ou sequer ouvir sugestões de quem quer que seja. Nisso o vizinho que estava por cima do muro assistindo a contenda, ligou imediatamente para a policia dizendo que Deus e Jesus estavam em vias de se duelarem no braço, o policial que rezava para não aparecer nenhuma ocorrência para tirar seu cochilo sobre a mesa, pediu que o denunciante ligasse para o Inferno, talvez o diabo pudesse fazer alguma coisa. Desligando imediatamente o telefone, nisso Deus gritou que Jesus voltaria para o inferno se referindo ao hospício, simultaneamente dois homens enfermeiros altos e fortes vindos de lá surgiram do mesmo beco e seguraram firmemente os fujões. Quando o primeiro louco gritou; “ Me solta que eu sou Jesus Cristo! O enfermeiro disse zombando; “ Ah é, então eu sou Deus”! O segundo louco vociferou; “ Não cometa blasfêmia seu imundo, Deus sou eu”! O homem que assistia reservado não tinha mais duvida sobre sua sanidade, desceu das escadas, arrancou toda e roupa e saiu gritando que era Dom Pedro Terceiro.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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