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Coluna – Planos Sangrentos

Doutora França assistia o noticiário da manhã quando o telefone tocou, por alguns segundos deixou aquele barulho estridente chamar a atenção da empregada que preparava o suco de laranja, ao ver que para a moça dois sentidos não assimilavam suspendeu o aparelho do suporte olhando ferozmente para a porta da cozinha. Com os olhos na televisão demonstrando pouco interesse na conversa retirou do ouvido e dependurou-se na mão com o braço esquerdo cruzado sobre o baby-doll semiaberto, ao voltar à escuta percebeu que havia desligado. Com palmas para apressar o café chamou atenção da empregada que parecia pouco se incomodar com a patroa já que trabalhava com o pensamento no filho que ficara com febre em casa, o telefone tocou novamente e desta vez França atendeu nervosa, antes que desferisse alguma palavra sob efeito do atraso do suco, seu semblante pálido adquiriu um rubor característico de pavor, balançando a cabeça e olhando por todos os cantos da casa, puxou o bloco de rascunhos que estava no braço do sofá e anotou com tremulações pelo corpo inteiro, a escada de madeira envelhecida denunciou a descida do marido que parou nos últimos degraus para observar a tensão na mulher que apenas balançava a cabeça. Foram aproximadamente dois minutos de acordo com o ponteiro do relógio de algarismos romanos do século XVIII vindo da França. Ao anunciar que o café já estava servido e que a demora se dera pelo atraso do entregador das frutas a empregada se viu invisível com a fala ecoando no meio da sala. O marido tentando entender o que estava acontecendo e a mulher puxando papéis das gavetas e empurrando na bolsa com desespero, na tentativa de acompanhar aquele enredo de perto ele voltou para o quarto mergulhando em baixo do chuveiro, situação atípica já que a Psiquiatra fazia sempre o mesmo ritual pela manhã, de ver as noticias, tomar o café e dar bom dia aos lísiantus no jardim. Poderia ter sido algo que o próprio fizera, pensava ele enquanto a água lhe caia nos ombros, na noite passada estivera no bar e após algumas doses beijara a garçonete na boca, poderia ter sido flagrado por algum celular ou alguém conhecido. E a Juliana poderia ser um fator de risco, a secretária da tesouraria havia lhe dito que não tomara a pílula e não se importaria com uma gravidez. O marido não lhe interessava mais, ela queria o chefe com todos os prazeres e lucros. Ele desligou o chuveiro com o coração em arritmia, se enxugou fervoroso com vontade de matar Juliana, como ela poderia fazer isto com ele. Chantagem naquelas alturas da corrida eleitoral para a presidência da empresa era  a ultima coisa que  poderia aceitar, Juliana não devia  fazer aquilo, lhe dissera no inicio que seriam apenas amantes, amava a esposa e tinha muito em comum, além dos filhos um patrimônio construído a muito custo. Rostos de pessoas o condenando lhe passavam como um filme voltava à cena da mulher com o telefone, tremula com lagrimas nos olhos, anotando provavelmente um endereço. Só poderia ser da casa onde ele e Juliana costumavam se encontrar, ou de algum local ermo onde a Secretária contaria tudo e exigiria uma quantia grande de dinheiro para não dizer nada a imprensa. O pior é que França com seu temperamento improvável, não deixaria a coisa no campo pacifico, leitora de Stephen King e Edgar Allan Poe não perdoaria uma traição seguida de um filho bastardo, mandaria mata-lo e jogaria seu corpo aos porcos. Vestiu-se informalmente, a empregada ofereceu-lhe o café, mas ouviu apenas a pergunta de onde estaria a esposa, ao ser respondido que saíra sem tocar no café e chamado um taxi ao invés do carro como era costume suas articulações aqueceram como se derretessem no interior dos membros, viera a memoria que Juliana sempre pedia que não utilizasse o seu veiculo nos encontros para evitar que os seguissem. Subiu então até o sótão e embaixo dos materiais de pesca puxou o trinta e oito de cano curto empoeirado e de pouco uso, limpou, carregou e entrou no carro prometendo que mandaria a amante para o inferno. Faltavam dez minutos para as nove horas quando o Palio de vidros escuros cruzou a Avenida do Contorno rumo a marginal, mas poucos metros a frente uma Blitz da Policia Militar parou o carro dirigido por Juliana que após vários gestos observados por ele da tocaia onde estava, foi detida e o carro levado pelo guincho. Sem ter como se vingar naquele momento regressou a casa para repensar os planos, para surpresa a mulher estava calma tomando o café e lendo o jornal, ao seu lado um boletim de ocorrência descrevendo o assalto no consultório. – Felizmente não levaram nada! O alarme disparou e eles correram. Disse a Doutora França sorrindo para o marido pálido de olhos arregalados e desabotoando a camisa em sinal de calor.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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