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Coluna – O Telegrama

E Renato ainda implorou para que o dono do supermercado não lhe demitisse. Mostrou a foto da esposa gravida de oito meses com outro de dois anos escanchado nas cadeiras.  No pacote da sensibilização estava o recibo do aluguel que naqueles dias sofrera um reajuste de mais de trinta por cento. Mas o patrão de coração duro e óculos escuros por causa da conjuntivite disse apenas que não admitia entregador de feiras lhe pedir aumento com aquela petulância, Renato servil como um cão ainda tentou voltar atrás afirmando que aceitaria continuar sem acréscimo no salário, ou até que lhe tirasse o horário de almoço, mas que não o mandasse embora para a sarjeta. Sem mais nenhuma palavra o gordo de óculos escuros e calças denunciando o cofre suado, gritou para a moça do escritório dar as contas ao ex-funcionário, e simultaneamente dirigiu-se ao segurança que apontou a porta da rua sem a menor cerimonia. Renato com o dinheiro do acerto no bolso e as contas na cabeça; berço, fraldas, mamadeiras e as despesas do taxi mais a comida de mulher parida que deveria bancar. Seguiu pedalando a bicicleta com os olhos inundados de lágrimas, sem perceber que o sinal estava fechado para ele, foi abalroado por uma Limusine branca que carregava uma bandeira verde com um grilo vermelho estampado. O chofer a pedido de quem estava no banco de trás encostou e convenceu o atordoado demitido a entrar no carro, avisou que não se preocupasse com a bicicleta, pois teria outra nova. No interior do veiculo além de um barbudo com roupas de árabe havia um japonês e outro bem escuro, provavelmente africano. O de vestimenta árabe era poliglota, falava tantos idiomas que às vezes se confundia um bilionário em busca de pessoas que precisavam de chances na vida. Renato abriu o sorriso, os olhos irradiaram luz quando o barbudo ouviu sua tragédia e prometeu emprego na multinacional que estavam inaugurando, salário inicial de dez mil reais. Vale refeição no valor de dois mil reais e o bônus alegria, que dava direito a ele com toda a família se divertirem nos finais de semana em qualquer lugar da cidade sem pagar nada, tudo era assinado numa folha e debitado na conta da empresa. Ainda uma casa mobiliada com empregada e chofer. Mas tinha um pequeno porém, estavam concorrendo à vaga ele e mais um. Simples assim. Como pagamento pelo tempo que passaram ali conversando, recebeu cinco mil reais, o dobro do acerto no supermercado de quase três anos de serviço. Os outros se despediram nas suas línguas, já que não falavam português e o árabe desejou-lhe boa sorte, avisando que se até a meia noite não chegasse um telegrama em sua casa, ele poderia se considerar contratado. E Renato chegou em casa tremulo, beijando a santa no pequeno oratório, pedindo que afastasse os correios da sua casa naquele dia, a mulher ofegante com a barriga imensa achou estranho o marido demitido pedindo aquilo para a santa. Mas depois se uniram na esperança. E as horas se passaram com os dois no portão, um olhava para cima e o outro para baixo, se revezavam com a vizinha do lado que os queria bem, nenhum sinal dos correios, graças a Deus dizia a mulher olhando no relógio que apontava dezoito horas. Haviam almoçado no portão sem deixarem de olhar um só segundo para os dois lados, quem passava na rua achava esquisito aquela cena, e acelerava  por receio de confrontos entre gangues. “Preocupados assim de olho na estrada, só pode ser tocaia” disse um carroceiro fumando um cigarro de palha e cuspindo no lombo do cavalo. E vinte e três horas e cinquenta minutos Renato mandou buscar cerveja, chamou os vizinhos e ligou o som, cantou com os ídolos e brindou dizendo que estava feito na vida. Um bêbado que passou por ali para filar um copo chorou e abraçou Renato sem saber o que acontecia. Mas faltava um minuto ainda, e uma moto de farol alto acelerando forte virou a esquina do lado da esposa, na caixa amarela se lia SEDEX. A mulher teve uma contração instantânea, a vizinha que dançava na boquinha da garrafa virou estátua na mira do gargalo. E Renato deixou o copo cair, a boca aberta sem forças para fechar não conseguiu dizer ao menos obrigado ao carteiro, que pediu que ele assinasse o recebimento. Mas feito mágica numa inexplicável reação de alegria, ele arrancou a camisa e pulou dando socos no ar como se fosse um jogador de futebol marcando o gol no ultimo minuto da final. “MINHA MÃE MORREU, CARAMBA”! VIVA! MINHA MÃE MORREU GENTE! URRUUU! O TELEGRAMA É PRA DIZER QUE MINHA MORREU! OBRIGADO SENHOR ESTOU CONTRATADO!

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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