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Coluna – Pagando Dividas

A rua estava agitada, o sol de meio dia era quente e o vapor do asfalto subia com cheiro de óleo queimado. O corpo de João Carlos suava embaixo do macacão de brim, “Mecânica do Belo” um garoto que começava a se alfabetizar segurava a mão da sua mãe e leu o logotipo da camisa do homem que parecia apressado, a tira colo usava uma bolsa marrom que no compasso dos passos traduzia um barulho de ferro se chocando. Um som estridente de buzina fez com que ele se voltasse ao mundo real, já que a cabeça estava além dali, havia se precipitado pela rua com o sinal aberto, sorte que o motorista do ônibus acabara de sair do ponto em velocidade compatível com a frenagem obrigatória na situação. Pouco se importou com a buzina e o semblante animoso do motorista, algo mais importante lhe arrastava com urgência, coisa que seu corpo se arrepiava, membros se descontrolavam e a sudorese escorria no interior da roupa. No escritório Dalva estava com a blusa amarrada acima do umbigo, os dois últimos botões estavam soltos, a calça jeans clara estava baixa e as alças da calcinha estavam expostas, ela mascava um chicletes de morango e de vez em quando fazia bolas, estourava e recomeçava a mastigação até soprar novamente aquela bola rosada. Na porta de vidro passava o pano lentamente como se desenhasse sobre a impressão de alguns nomes, ao ver seu reflexo passou a mão nos cabelos e escondeu os fios desarrumados atrás das orelhas.  Um cheiro suave de “Ferrari Black” veio de encontro a sua memória com imagens torridamente excitantes, um gemido e um beijo caudaloso sob uma aura que jamais se esqueceria, ele estava chegando, somente ele pisava com aquela suavidade que desarticulava seu coração, ele dizia sempre o mesmo oi, lhe devorando da cabeça aos pés, ninguém falava seu nome como ele, era algo tão encantador que saia daqueles lábios que um nome tão comum se tornava raridade, precioso bom de se ouvir. Coincidentemente naquele horário ela estava sempre sozinha, escolhia assim, desta forma fazia sua limpeza com liberdade e recebia o Contador que lhe explicava os rendimentos do patrão e como fazer o seu ganho aumentar, era a hora do almoço para os outros que os dois devotos do trabalho passavam se entregando a tarefa da carne. João Carlos apertava aquela bolsa contra o corpo, apalpava certificando que aquilo que precisava estava mesmo ali. Antes de adentrar as grades do pequeno prédio comercial, deu a volta para confirmar se o numero da placa do carro batia com as informações recebidas, pisou os primeiros degraus, quanto mais subia mais pressa tinha nas pernas, na passagem para o segundo andar o pequeno restaurante estava aberto, uma senhora gorda com cabelos curtos e óculos profundos rasgava um bife de fígado sem incomodar os talheres, na mesa ao lado um conhecido tomava cerveja espetando rodinhas de salsicha, com um aceno João Carlos sentou-se e tomou uma cachaça amarela, comeu do petisco e virou o copo de cerveja que o amigo havia enchido, ouviu daquela boca que a pessoa estava lá. Suas pupilas dilataram os dentes se apertaram e a mão direita fechou-se em forma de soco. Eram poucos degraus, mais alguns passos sairia de frente à porta, Dalva esta lá dentro da forma que lhe contaram tantas vezes imaginava cenas fortes que os pensamentos não conseguiam concatenar. Estava silencio, um balde e um rodo escoravam a porta de vidro em claro sinal de álibi, mas ele não precisava de outras provas que dissesse algo mais, estava tudo muito claro. Só havia uma saída, aquela porta entrava e saia sem direito as rotas de fugas alternativas. Antes de chamar no interfone respirou fundo apalpou o volume na bolsa e sentiu que estava tonto, a pinga, o copo de cerveja e a tensão se misturaram e girava dentro da cabeça. Antes que o dedo chegasse ao botão de chamar, o contador saiu com sua cara de desconfiado e sua maleta ordinária, Dalva vinha com folhas de manuscritos no mais puro e mal ensaiado dos Teatros. João Carlos fixou a vista no contador que ficou imóvel sem saber o que fazer, enfiou a mão lentamente dentro da bolsa e antes que tirasse algo que o outro temia, recebeu uma quantidade de notas que no total das contas somavam  mil reais. João Carlos por sua vez tirou uma nota do bolso e assinou repassando ao Contador. Agradeceu e avisou para Dalva que o seu marido a esperava lá embaixo.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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