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Coluna – Parecenças

Estão dizendo por aí, a boca pequena, que estou com a aparência de quem saiu duma caverna. Se há gente dizendo isso é porque devo estar mesmo parecendo com um daqueles nossos ancestrais armado de porrete que os nossos índios, mais pertos de nós, chamam de tacape.

Já me compararam, e o amigo José Versiani foi um deles, ator duma novela que nem vejo – aliás, novela é o que não vejo mesmo. Não me recordo o nome do ator, mas o Zezinho recordará e dirá logo depois que ler estas linhas.

Houve quem me achasse parecido – ou não seria o contrário, ele parecido comigo? – com o cantor Oswaldo Montenegro. Afinal, Montenegro é de 15 de março de 1956, sou um pouco mais antigo do que ele. Mas até me sinto lisonjeado por alguém achar Oswaldo Montenegro parecido comigo, pelo menos nesta fase da minha vida, vivendo como vivo em Grão Mogol, hoje, de cabelos, barba e bigode por fazer.

Quem me conhece desde o século passado sabe que passei bons alguns anos de cabelos, barba e bigode grandes. Recordo-me que tudo começou concomitantemente à explosão dos The Beathes no mundo, o fim do cumprimento do serviço militar – o Tiro de Guerra – e a ditadura militar vigente no Brasil.

Os cabelos, eu os deixei crescerem para entrar na onda que nunca mais se repetiu e dela fizeram parte e são partes milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro. Agora, a barba e o bigode eu os deixei crescerem naquela época como forma de me desforrar do Tiro de Guerra. Foi o tempo da rebeldia. Desforrar da exigência dos sargentos de ter de barbear todo dia, de modo até a deixar a pele do rosto sensível como bumbum de bebê.

Quando me mudei de Montes Claros para Belo Horizonte de cabelos, barba e bigodes grandes e fui trabalhar no jornal Estado de Minas, na Editoria de Polícia, com Wander Piroli, aceitei o desafio de cobrir o Departamento de Investigações (DI) da Lagoinha, onde ficavam todas as delegacias daquela época. No primeiro contato que tive com o delegado Gabriel Ignácio Prata Neto, então superintendente do DI, apresentado pelo grande repórter Fialho Pacheco, ele olhou pra mim e disse: “Barba e cabelos a Nazareno”. E passou a me chamar de Nazareno.

O então advogado criminalista e que chegou a ser secretário de Segurança de Minas Gerais, o já falecido Sidney Safe da Silveira me tratava por “Ernesto Che”, o que naquela época era a mesma coisa de me chamar de subversivo, considerando a fama do personagem morto na Bolívia.

O tempo voou e na sua voracidade tosou os cabelos grandes e escanhoou a barba e o bigode. Muita coisa aconteceu de lá para cá pessoalmente. Vieram os filhos e já vieram netos, e de repente, outro desafio na vida. Depois de mais de 40 anos em Belo Horizonte, veio à mudança para Grão Mogol.

Passei 22 anos em Montes Claros, onde nasci, e não conheci Grão Mogol. Foi preciso viver esse tempo todo em BH para descobrir Grão Mogol, quando há mais de três anos Lúcio Bemquerer me chamou para conhecer “a loucura que estou fazendo aqui”. Era o Presépio Natural Mãos de Deus.

Vim, vi e gostei. Aqui é o lugar que mais embatia senti. Andei – andei mesmo, literalmente; Serra da Mantiqueira e outros – por vários lugares à procura de um lugar sossegado, de belas paisagens, de ar puro, onde houvesse mesmo qualidade de vida, porque de poluição, trânsito de veículos intenso, correria, barulho, eu estava de saco cheio.

Em Grão Mogol pude colher reminiscência da meninice, quando se podiam deixar portas e janelas das casas abertas, décadas de 50/60.  Os quintais. As mangueiras. A vida tranquila. As pessoas se conheciam. Todos frequentavam os mesmos lugares.

Duma década para outra tudo mudou. Montes Claros cresceu. A terra tremeu. Hoje a minha cidade está como que dentro duma caverna abstrata guardada como peça de museu. Mas existe. Porque o museu da minha Montes Claros é vivo.

Então, desde que cheguei aqui, há mais de nove meses, todo dia divulgo Grão Mogol, uma, duas ou mais vezes. Acho que é uma forma de dar a Grão Mogol o que eu devia ter dado antes, muito antes, quando ainda vivia em Montes Claros.

Aqui, é como se eu estivesse, no melhor sentido, dentro da minha caverna, que sou eu mesmo. Aqui reencontrei os velhos tempos de mim, melhorados. Daí ter deixado crescer a barba, o bigode e os cabelos (agora grisalhos), como naqueles tempos tão bons quanto são bons os tempos de hoje.

Saio agora da caverna, mas não sou troglodita.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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