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Sites de paquera para muçulmanos atraem milhões de usuários

Casamentos arranjados são uma prática comum em muitas sociedades, mas o processo de apresentação e triagem dos noivos pode ser uma grande fonte de ansiedade para os jovens envolvidos, mesmo que eles fiquem satisfeitos com o resultado.

Sites permitem buscar membros de acordo com a doutrina islâmica seguida por eles
Sites permitem buscar membros de acordo com a doutrina islâmica seguida por eles

Adeem Younis lembra-se das tentativas orquestradas por sua família. Ele conta que passava por uma grande pressão quando uma pretendente era levada para jantar em sua casa.

Nestas ocasiões, costumava ouvir: “Você não gosta dela? Por que não? Ela tem duas pernas, ela tem dois braços, ela é uma profissional. Como você pode não gostar dela?”

Motivados a iniciar um processo menos constrangedor, Younis e outros muçulmanos na Europa e nos Estados Unidos passaram a buscar novas maneiras de encontrar sua alma gêmea. Assim nasceram os sites de namoro voltados para praticantes da religião.

O site SingleMuslim.com (Muçulmanos Solteiros, em inglês), fundado por ele quando ainda estudava na faculdade, em 2000, tem hoje mais de 1 milhão de membros e diz formar cerca de quatro casais por dia.

O empreendedor afirma que a sua ênfase no caráter duradouro dos relacionamentos nascidos ali vai além da dos sites de namoro comum.

“No Islã, o casamento representa metade de sua religião”, diz, citando um ditado que muçulmanos acreditam ter sido proferido por Maomé. “O Islã nos ensina que o casamento é a base da nossa sociedade. É um assunto muito sério.”

Sem estresse
A popularidade dos site de namoro não é uma novidade – na última década, eles se tornaram um fenômeno em diversos países, principalmente os ocidentais.

Seguidores de outras religiões, como o cristinanismo e o judaísmo, hoje podem escolher buscar suas caras-metades online em sites voltados para seus respectivos nichos.

A ideia vem conquistando adeptos agora entre os muçulmanos ocidentais. Para muitos deles, o namoro online é uma solução sem estresse para o desafio de encontrar um parceiro em países onde poucas pessoas costumam compartilhar da sua fé.

É também uma ferramenta para buscar parceiros em ‘subnichos’ da comunidade.

Um dos sites do gênero, o Muslimmatrimony.com, por exemplo, permite buscar usuários que seguem diferentes doutrinas do islamismo e filtrar os resultados pelo idioma falado por seus usuários.

Outro, o ishqr.com, diz ser o lugar perfeito para feministas em busca de um “companheiro feminista, ousado e humilde”.

Sites de namoro para muçulmanos oferecem nova forma de adeptos da religião conhecerem parceiros
Sites de namoro para muçulmanos oferecem nova forma de adeptos da religião conhecerem parceiros

Poucas oportunidades
Muhammad e Catherine se conheceram online há quatro anos. Hoje, estão casados e têm dois filhos. Mas a busca pela felicidade conjugal não foi fácil.

“Muçulmanos devotos não frequentam bares e boates. Isso é comum nas culturas ocidentais, mas na cultura muçulmana é mal visto”, afirma Muhammad.

“Então, não há muitas oportunidades para conhecer gente, além dos arranjos feitos por nossas famílias.”

Ele frequentou vários sites de namoro comuns antes de testar um serviço exclusivo para muçulmanos.

“Mandei o primeiro email para Catherine em meados de 2010. Tudo evoluiu muito, muito rápido. Casamos três ou quatro meses depois. Quando você encontra a pessoa certa, você sabe logo de cara.”

Muhammad é de Bangladesh. Catherine é britânica e se converteu ao islamismo na faculdade.

Os dois parecem formar um casal incomum, mas de certa forma exemplificam o tipo de relação que estes sites de namoro buscam apoiar.

Identidade global
“A identidade islâmica é global. Não é física nem geográfica, mas ideológica”, diz Mbaye Lo, professor de árabe da Universidade Duke e autor de um estudo sobre a aplicação de ferramentas online em casamentos muçulmanos.

“Isso explica por que esses sites normalmente mostram um africano muçulmano com uma garota indo-paquistanesa em sua página principal. É para representar o Islã como algo global, fazer com que as pessoas se relacionem globalmente.”

Segundo Lo, isso permite que jovens de países conservadores escolham com mais liberdade seus potenciais parceiros.

“O status quo de muitos países não é favorável às mulheres, a que elas façam escolhas. A internet torna isso mais fácil”, ele afirma.

O tunisiano Riad conheceu sua mulher pela internet em 2012. “Fiquei apaixonado no momento em que a vi”, diz ele.

No entanto, assim como muitos homens do Oriente Médio e do norte da África, ele encara o namoro online com certa reserva.

“O mundo virtual é um mundo de mentiras. Você não sabe com quem está falando”, afirma.

Orgulho
Diferentemente do Ocidente, onde os sites de namoro para muçulmanos atraem jovens com uma forte identidade religiosa, Riad conta que, na Tunísia, é o oposto.

“Famílias muito religiosas preferem que seus filhos conheçam seus parceiros pelos meios tradicionais, através da família. Para eles, conhecer alguém pela internet não é algo natural, e isso é visto de forma suspeita”, acrescenta.

Mas, no Ocidente, esta indústria está em plena ascensão. Younis, que criou o SingleMuslim.com, nunca imaginou que o site se converteria em seu trabalho em tempo integral.

Depois de 14 anos, o site deu a ele mais do que orgulho profissional. Alguns anos depois de ter criado o serviço, ele próprio se casou com uma mulher que conheceu na rede.

Hoje, Younis é um orgulhoso pai de quatro crianças – entre elas uma menina que nasceu enquanto esta reportagem estava sendo escrita.

BBC Brasil

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