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Coluna – Filme de Natal

E Papai Noel andava apressado com seu saco vermelho batendo nas costas. Noite quente de clima tropical causando desconforto dentro da roupa de lugar frio. Ele subia o morro onde crianças vivem entre a esperança de crescer e o medo de morrerem precocemente, ofegante às vezes se escondia em becos escuros para se livrar dos cães que esticavam seus focinhos lá do alto para adivinhar o que trazia escondido. Escalava muros com maestria, mesmo com a barriga grande atrapalhando um pouco, a magia do bem o transformava, ser Papai Noel é privilégio e ele sabe  disso, todas as crianças não falam outra coisa nas vésperas de natal senão no velhinho dos presentes, mudam seus comportamentos parando de brigar com o irmão, não respondendo aos pais e até comendo jiló na salada de beterraba com cenoura. Um gato preto atravessou o caminho, Papai Noel não se importou, em retribuição ao silêncio do bicho também não lhe teve como mau agouro. De repente um foguete estoura no meio dos casebres, depois mais outro e outros. A policia estava chegando, subindo a favela com vontade de pegar alguém, alguém disse que era o “arrego” outro foguete explodiu no lado oposto e uma centena deles não parou mais de estourar, pessoas armadas começaram a correr e dar tiros na direção da entrada do morro, garotos sem camisa pulando feito macacos entrando pelas janelas das casas, saltando  muros como um bonito espetáculo de circo. Mas do lado de baixo também vinha tiros, vinham gritos de; perdeu, perdeu, mulheres chorando com crianças no colo. Ao longe outros foguetes estouram, desenham objetos no ar e caem  levemente, Papai Noel ficou sem entender a diferença daqueles fogos. Um policial passou por ele e lhe trombou no saco, outro lhe deu um safanão perguntando se estava doido em entregar presentes numa hora daquelas. O velhinho puxou o relógio que estava dependurado por uma corrente de prata,  viu que passava pouco das duas horas da madrugada e seguiu seu trabalho. Deu mais uma verificada na lista que carregava anotado nas mãos e percebeu que a descrição era aquela, a casinha humilde de papelões na janela e uma luzinha tímida vindo de dentro. Retirou um embrulho e lançou sobre o muro. Antes que pudesse mover-se para o lado um dos policiais lhe apontou um fuzil, sem a menor presença de sensibilidade na alma gritou que colocasse a mão na cabeça, outro que vinha no apoio empurrou-lhe com mais gritos, procurou drogas no saco e dinheiro nos seus bolsos, espalharam os embrulhos por todos os lados, bolas desciam repicando pelas vielas e se perdiam no escuro, bonecas choravam dentro das caixas e tombavam sem direção. Papai Noel estava preso, O Grupo de Operações especiais não poderia descer o morro de mãos abanando e começaram as torturas, tentaram arrancar-lhe a barba, puxaram seus cabelos, mas sua serenidade continuava a mesma. Numa das ruas antes da delegacia forçaram um acordo, o comandante explicou que foram lá em cima fazer a coleta do imposto que os traficantes pagam para venderem suas drogas, mas como não receberam queriam algo em troca da sua liberdade. Papai Noel enfiou a mão no bolso da calça e retirou algumas pequenas estrelas que brilhavam feito vaga-lumes. E nas mãos de cada um daqueles despejou uma, dizendo que aquilo significava o sonho de cada pessoa, que toda criança tem uma luz daquela dentro de si, sendo o brilho responsável por tudo que se acredita de verdade. Ao olhar diretamente para aquela luz, um dos policiais enxergou seu filho na frente da bala que dispara direto no meio das crianças da favela, outro ouviu o latido do seu cão naqueles que trucidam para invadir as casas. O terceiro ficou parado se lembrando dos brinquedos que as crianças mortas na guerra entre traficantes e policiais nunca chegarão a brincar. O comandante da operação saiu do carro e começou a andar, andar com passos lentos e pesados olhando a madrugada ser diluída pelo tempo que não espera. ”Lá no morro como em qualquer canto existem  muitos sonhos que ainda precisam ser realizados” disse involuntariamente estas palavras e se perdeu  no restante da escuridão. Com a musica de John Lennon “Imagine” os créditos finais do filme começaram a subir. Todos aplaudiram, nomes dos atores da própria comunidade eram festejados quando surgiam na tela. Mas antes de começarem os comentários sobre o filme o Comandante da Unidade de Policia Pacificadora deu voz de prisão ao Roteirista e Diretor do filme, alegação: Construção Pejorativa da imagem da policia. A pena foi convertida em reescrever o roteiro com outro final.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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Um comentário

  1. Gostei muito… Parabens