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Coluna – E tudo foi assim

O crime da Rua dos Andradas estava se registrando na história como um dos mais enigmáticos de todos os tempos. Todos os investigadores envolvidos acreditavam em coisas do mundo sobrenatural, pois nenhuma pista havia sido deixada pelo assassino. Viera em segredo absoluto pessoas com currículos renomados do serviço de inteligência e durante quase trezentos e sessenta e seis dias daquele ano bissexto não conseguiram resolver o problema. A rua dos Andradas era a residência do poeta notívago Castanho Salvanir, calçada com paralelepípedos tinha casas na maioria conservando seus estilos originais da época do Brasil colônia e um imponente bar que se transformara em patrimônio imaterial da humanidade por aqueles que o frequentavam, o “Palavras Molhadas” do cantor e compositor sem glamour Martininho de Capêu, ali desde os anos trinta fora referencia para os grandes artistas renovadores das idéias de criação, aqueles que rompiam com o conservadorismo da sociedade e davam seus recados em musicas, letras pinceis e encenações, entre eles o internacional artista plástico do Surrealismo Salvador Dali. Inicialmente o poeta Martino de Capêu Pai, amigo de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e outros vultos da Semana de vinte e dois, recebera do avô uma pequena mala, seria sua, porém só tinha o direito de abri-la após a sua morte. E o velho que tinha saúde de ferro apaixonou-se por uma irmã legitima que já era casada com um ex-policial que nos porões de Getulio Vargas torturava presos políticos e se gabava do que fazia. Conseguiram fugir, foram felizes e incestuosos durante longos oito meses, até o dia em que a mulher com a consciência pesada confiara no padre, que após ouvir a confissão entregara o caso ao Bispo, que cumprindo a determinação dos seus princípios hipócritas, convocara a família do casal. A tensa reunião do julgamento do crime de incesto durara quase quatro horas, no final a condenação fora o trancafiamentos dos dois no manicômio de Barbacena. Apaixonado e desiludido, louco e barbudo, cheirando a urina e tomando choque na glande o avô de Martino se matara, tomando todos os remédios encontrados nas cabeceiras dos leitos dos seus colegas de quarto. Na família ninguém tivera o direito de chorar pelo velho que segundo o Bispo já se encontrava sobre os severos cuidados de Satanás. A irmã, dizem que havia fugido numa rebelião e com outro nome instalara-se numa casa de prostituição em Salvador. Na mala deixada pelo havia uma carta de alforria de uma escrava de nome Adelaide, assinada pelas mãos do Imperador Dom Pedro l. Algumas moedas de ouro e um conto de reis e curiosamente também, um saco de pano com ossos da mão esquerda e uma aliança de um soldado que lutara na Guerra do Paraguai. O nome gravado era Maria Bertioga. Tudo isto fora vendido para um traficante de antiguidades e do pouco dinheiro surgira o bar que passara por varias gerações sendo no subterrâneo de um salão com mesas de sinuca e uma pequena sala de amores, para aqueles que quisessem conhecer melhor a pessoa que se interessara durante a ingestão do “santo daime”. Pelo jeito que anda as investigações o crime da Rua dos Andradas será como aqueles cometidos por Jack o estripador, sem solução, até mesmo se quem cometera fora do sexo masculino ou feminino, mas o “Palavras Molhadas” tem a honra de sempre em trazer novidades, lembrando que o assassino pode ser um enviado das trevas ou da luz, que sempre nos pesadelos se registram gritos e faces que não é fácil de definir.  Dentro das pessoas ilustres que já passaram pela Rua dos Andradas e tomara um porre poético, destaca-se Paulo Leminski, era década de setenta e quem contou foi Aroldo Pereira o cara magricela que anda pedalando pelas ruas de Montes Claros e dizendo poemas, ele é o curador do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético. “Estávamos eu e o amigo Roger andando, pensando em nada e uma cachaça nos veio à mente vamos tomar uma lá? Imediatamente uma voz rouca com cheiro de cigarro baforou sobre a gente, eu também vou, posso? Era um sujeito estranho que eu vira no livro com sua cara de vocalista do Camisa de Venus. Era Leminski, assim nos conhecemos”.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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