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Coluna – Chá de boldo para chifre

O boldo é um santo remédio contra problemas digestivos. Mal- estar e desagregações no fígado. O chá é amargo e custa a descer, mas daí a pouco o sujeito que estava mulambado no canto se põe de pé e cai na gandaia novamente. Seu nome científico é Peumus boldus Molin. Além destas propriedades descritas e comprovadas dizem que cura do “mal da galha” que é popularmente conhecido como chifre. Só que o descobridor desta propriedade avisa que só vale para aquele de no mínimo três anos, passou desta idade a patologia adquire um novo termo “chifre encruado” este nem misturando aloe vera com picado de jiló verde e gotas de bílis de cadela parida poderá resolver. Tem outra coisa, o cara não pode ser nervoso ou vingativo que também não funciona.  O grande achado é objeto de pesquisa de um vendedor de raízes do mercado central de Belo Horizonte, prefere não ser identificado quando for citado em matérias, contos ou crônicas, segundo o próprio o seu maior feito foi ver o seu sobrinho recém casado livre do incomodo que carregava na testa. Bem, para chegar à banca do pesquisador deve-se andar um pouco mais de trinta minutos, já que dentro do mercado a enorme variedade de produtos impõe a vista observação detalhada. Barzinhos com cervejas geladas e estufas com tripas suculentas chamando para um “crec”, bifes de figados acebolados ridentes e oferecidos ao lado de um arroz de olhos amarelos no meio dos ovos, galinhas sendo arrancadas das suas jaulas e balançadas de cabeças para baixo como se o braço da vendedora fosse maquina de pesar. Um barulho que cega o ouvido de qualquer surdo, no labirinto de tantas entradas de repente se chega a aquela banca empilhada de folhas, raízes dependuradas feito cipós na mata, e uma série ininterrupta de litros de cachaças rotulados com os mais estranhos nomes; Raiz de muleta, raiz de Matarazzo, rabo do capeta, focinho de velha, dedo de sogra, bróca do soproso, defunto aceso e algumas etceteras. Qualquer um que vá ao estabelecimento terá sempre a mesma conduta, depois de falar “p.q.p” mil vezes é que enxerga o vendedor proprietário e pesquisador que deseja boas vindas e aos cochichos pede por todos os santos que não gosta de ser chamado pelo nome ou conhecido em lugar algum. Baixinho um metro e cinqüenta e cinco de altura, chapéu de couro redondo atolado na cabeça (estilo finado Dominguinhos) banguela dos dentes na frente e um risco de bigode sobre os beiços sujos de corante. Então a história da salvação do casamento que originara a descoberta começa a ser contada, se dera quando o tal sobrinho que ele também prefere que não apareça em hipótese alguma, havia se enamorado de uma moça de cheiro bom que prestava serviços na Rua São Paulo, era prostituta de frente e verso, mas para o rapaz era a lady dos seus sonhos, a mulher que com alguns tratos e, menos palavrões na boca poderia ser a mãe dos seus filhos. Os dias se passaram e o coração se amarrara de tal maneira que a “dama dos prazeres” não tinha mais sossego, o moço mal saia do trabalho como lavador de carros em um estacionamento do centro e ia gastar suas moedas. O dia em que declarara sua loucura inconsequente a moça por pouco não se matara de rir, prometera casa, comida, roupa lavada, pó para cheirar e outras coisas mais que ordinariamente se diz, mas ela seminua de corpo malhado e desejado, sorria da proposta. Ele foi para casa tristonho e desesperado, pegara o ônibus, metrô e um moto taxi para chegar, ajoelhara aos pés de Nossa Senhora do Desterro, para desterrar aquela quenga da sua cabeça, mas dormira soluçando de amor. A santa não ajudara o pobre, a paixão amanheceria  ainda mais forte. À tarde depois da labuta, chegara com flores e uma caixa de bombom, terno preto e um par de alianças compradas na Praça Sete, os nomes gravados não eram os deles. Depois de algum tempo se casaram, ela não freqüentava mais a casa da Rua São Paulo, mas avisara que de alguns amigos não separaria jamais, eram eles; Ricardo Pinote, João Noiado, Agildo Fiofó e Augusto Satanás, também sairia para o Funk todos os dias. Bilhetes de amigos alertando a ele que seu chifre crescia eram tantos jogados sobre o muro e embaixo do portão que no espaço de uma semana foram vendidos a Cooperativa de recicláveis em torno de dez toneladas. Mas este tio baixinho de chapéu de couro que havia sido corneado pela esposa, pela amante e por uma namorada que viera depois, ensinou-lhe a tomar o boldo com diazepan batido no liquidificador, todas as noites o rapaz dormia tranqüilo, e, pela manhã fazia o café e a marmita para não incomodar sua amada, que na maioria das vezes ainda não estava em casa. Milagres do boldo.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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