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Coluna – Pagando com a Dor

Um homem e uma mulher aguardavam ansiosos na entrada da Unidade de Terapia Intensiva de um hospital. Ambos de cabeças baixas, ele olhava no relógio e deixava lágrimas escorrerem em silêncio. Ela mastigava chicletes, cruzava e descruzava as pernas. Também olhava o relógio varias vezes. – Qual é o nome da senhora? Ele perguntou com voz branda de feições cansadas, ela fingiu não ouvir, se virando para o lado. – Minha esposa está à beira da morte! – Escuta aqui moço, minha mãe também esta a beira da morte, existem milhares de pessoas pelo mundo a beira da morte, mas eu não tenho nada a ver com isso! E para de tentar puxar papo comigo, está ficando viúvo e já querendo preparar a substituta é?! Comigo não! O homem colocou a mão na boca em sinais de surpresa e caminhou lentamente para a porta, mas antes de sair para o corredor virou-se para ela. – Olha à senhora está enganada, amo minha esposa e jamais faria algo para desrespeitá-la principalmente neste momento! Cruelmente a mulher com um olhar de desdém apertou os ouvidos com as duas mãos, ele mansamente desviou a trajetória da vista que ia à direção dela e retirou uma pequena cruz do bolso da calça, um crucifixo que era da esposa e nas mãos dele representava a fé e o amor por ela. Naquele intervalo o medico plantonista apareceu de repente abrindo uma portinhola dentro da porta que dava acesso ao CTI. A mulher que fugia do contato com o homem também ficou de pé, ambos com as faces descoradas pela iminência do boletim de saúde dos entes. A mãe dela fora atropelada numa rua de pouco movimento, um carro suspeito não obedecera à ordem de parada da policia, iniciou a perseguição na saída da cidade e em busca de fuga os bandidos adentraram aquele bairro, a senhora que conversava com a vizinha no acostamento fora lançada a mais de cinco metros de distancia, quebrara o fêmur esquerdo e tinha suspeita de traumatismo craniano além de fratura exposta no antebraço direito, após quatro meses de internação recebera alta, mas uma semana depois uma infecção causada por bactéria hospitalar a levara em coma para o CTI. A esposa do homem inciara com quadro depressivo após o nascimento da filha, não tinha mais autoestima e pensava em suicídio. Tinha pavor de ouvir o choro da família e dizia que tomaria veneno para contaminar o leite e matar a criança. Descuidaram dela numa tarde de sábado, enquanto todos viam televisão na sala se trancara no quarto e com uma faca de cozinha cortara o pescoço e os pulsos. Ao arrobarem a porta estava caída no rio de sangue. Por sorte a vizinha havia tido uma parada cardíaca e o resgate estava terminando os procedimentos, conseguiram salvá-la, mas entrara em choque sendo admitida na Unidade de Terapia Intensiva em coma. – Boa tarde gente, meu nome é Paulo Granelli sou o médico responsável pelo CTI, infelizmente a senhora do leito 45 acaba de falecer, fizemos de tudo, a equipe está toda aqui dentro, vocês vão comprovar com os olhos, lamentamos a perda. O homem estava paralisado, sua cabeça chacoalhava e um gosto de sangue escorria dentro dele. O medico fechou a portinhola e sumiu na mesma fugacidade que apareceu. – Meu Deus e agora, meus filhos pequenos, nossa vida! Enquanto se maldizia a mulher era indiferente e fria. – Ave Maria que chatura! Moço eu não tenho nada a ver com isso não! Vá chorar em outro lugar! O homem chorou mais ainda, porém silenciosamente respeitando aquela criatura insensível que dividia o espaço. De repente o medico com sua magia de aparecer do nada retornou com um prontuário e uma touca de pano na cabeça. – Gente, gente mil perdões, em nome de toda a equipe peço perdão, quem morreu foi do leito 54. O homem ganhou mais uma chance de ser feliz, sua esposa estava viva, voltaria para casa para cuidar dos filhos e ele diria a ela o quanto era importante para eles. A mulher que a pouco desdenhava o sofrimento dele, estava de pé puxando os cabelos e balbuciando sem forças para gritar, – Mãe, mãe, mãe, mãe…

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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