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Coluna – Desilusão

Duas almas distintas, dois mundos completamente antagônicos. Um amor literalmente impossível de se viver. Mas ele acreditava, vivia a cada segundo dos seus instantes poéticos suspirando e bem dizendo a amada. Em noites de lua cheia, sentava-se com a viola a beira da lagoa e a via dançar no clarão dos céus, seu corpo perfumado deslizava no compasso das notas dedilhadas nas cordas, às vezes descia de asas enormes e mergulhava nua nas águas que remexiam como rimas milimétricas cifradas pelo coração. Quando raiava o dia o sol lhe chegava morno, gosto de beijo na boca, hálito de desejo que eriçava a pele pedindo que se entregassem, as horas caminhavam e eles não saiam daquele canto, encanto, ninho de amor com sede de gozo eterno, ternura adocicada, fusão mitológica deuses em seus Olimpos peculiares.

 “Meu peito menino poeta,

Gotas de orvalhos saliva vontade

 Quem me dera eternamente,

Tê-la assim nos braços meus, acordaria inspirado

Gritos sangrando amor…

Mas um dia a menina faceira, levada de saia florida, seios duros expostos ao meio dia deixara que olhos famintos lhe devorassem sem pudor, nem a jura enamorada do poeta lhe contivera a sagacidade, ela pulava e colibris lhe tingiam aureolas, borboletas se metamorfoseavam e flores azuis desabrochavam, outras pessoas vinham não se sabe de onde, eram homens vestidos com roupas de casar, eram muitos e traziam alianças, queriam compromissos, afoitos, sagazes inventavam poesias, tentavam ser poetas, mas a moça levada de saias floridas não pensava no seu poeta e se desnudava saltitante, deixava a vista suas curvas sensuais e toda a liberdade que a natureza lhe ofertara tão bela, sua saia florida despencara rua abaixo e os cães cheiravam nucio, outros homens cantavam com violas e se vestiam de casamento, alguns traziam flores e moedas de ouro eram atiradas ao caminho, outros colibris se manifestavam, a borboleta Atiria queria se casar também e estava sem roupas, nas alamedas das flores haveria de ter festa e os astros do mundo pequeno prometia orgia. Mas um trovão rimbombou com fúria, um corisco lançou-se vingativo sobre os homens que seguiam a menina faceira, suas alianças derretiam sem compromissos e seus corpos foram soprados por um vento forte e danoso, aquela menina nua lembrou-se do poeta que ficara na ilusão do seu encanto que lhe dizia versos e fazia amor sob estrelas pintadas a dois… E era tarde, ele a viu refletida no espelho d’água  com seu sexo descoberto para os olhos que a  engoliam, mastigando  feito bocas sedentas, eles não conseguiram morrer, todos os homens que se vestiram para casar se casariam com a moça prometida para o poeta, pois o corisco não tinha mais forças  para lidar com a imortalidade da paixão, nem o ribombar violento dos trovões poderia acontecer, ou a força danosa do vento voltar sobre o firmamento. Ela não se vestiria outra vez, era nua assim para sempre, cantaria até que o fim dos tempos fossem outras páginas e outros amores lhe conquistassem, novos calores a fizesse derreter-se de desejo, a fidelidade não lhe atraia, com os versos do poeta enamorado se fizera imortal. Assim o poeta sensível feito à orquídea lilás, mergulhou-se no lago da desilusão e pediu aos deuses da vontade de querer que lhe voltasse à mortalidade, retornasse a fraqueza de antes, pois a vida não lhe significava sem o cheiro da menina faceira que da lua viera para enamorar-se no lago, prometendo o amor eterno.

“Meu peito menino poeta,

Gotas de féu saliva desilusão

 Quem me dera eternamente,

Tê-la de volta nos braços meus, Não morreria angustiado

Oh peito dolorido sangrando amor…

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso
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