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Coluna – Duas ruas a baixo

Picharam “duas ruas a baixo”. Era a casa do delegado, muro alto, cerca elétrica construção imponente, a tinta usada na pintura era de primeira linha quem ousava passar a mão para sentir a textura se deliciava, dizia uma garota que vinha da escola, “Nossa, nem a parede do meu quarto é tão lisa quanto este muro!” O padre comentava com certa inveja, “Ao invés de ajudar a paróquia reformar suas paredes, faz uma pintura destas em parte externa de muro, Deus cobrará com certeza”. A empregada saia para lavar o passeio, jogava água de mangueira, abusava do desperdício, molhava os cães que rondavam o lixo e ralhava com o entregador de jornais que não pisasse onde estava limpo. Mas depois daquela pichação muitas coisas mudaram.  “Duas ruas a baixo” em letras de forma escritas de preto, seria um código e o delegado não poderia desfazer da prova do crime, doía ver o ocre violentado pelo negro do spray exposto daquela maneira, mas conspirações acontecem a todo instante e tudo indicava que não era tão simples o caso. Numa coletiva em pleno passeio tendo como fundo a pichação, o delegado deixava claro que todos ficassem tranqüilos, pois sua equipe de inteligência desarticularia qualquer plano que viesse atentar contra a paz do bairro, poderia ser Mulçumanos do Estado Islâmico, Boko haram ou Kamikazes japoneses, mas seriam descobertos. E a Televisão destacava aquela pichação misteriosa “Duas ruas a baixo” qual será o significado desta frase?”indagava o repórter. Em entrevista uma senhora de cabelos grisalhos amarrados de óculos bifocais, segurava um terço nas mãos e comentava apontando para o muro “Isto é a marca do satanás, todos pensaram que o fim do mundo seria anunciado com o numero da besta, mas este é o código da besta do apocalipse”. Um telespectador head-banger fã da banda de rock pesado Dark Angel, achou o máximo aquele relato e concordou, “O fim do mundo está chegando este é o sinal” e na sua página em rede social mudou o perfil “Duas ruas a baixo” e assim roqueiros daquele grupo publicavam “Je suis Duas ruas a baixo” e a internet não comentava outra coisa, o nome da cidade era citada a todo instante e o mundo se dividia entre aqueles que acreditavam que o fim estava chegando e os outros que achavam se tratar de golpe de marketing. O delegado dava entrevistas todos os dias dizendo que o serviço de inteligência da sua delegacia estava com algumas pistas, mas ainda era cedo para qualquer revelação. “Duas ruas a baixo” era o nome da nova banda do ex-vocalista do Venom, Cronos já conhecido nos meios do rock queria comprar aquela casa, pois dissera que em seus sonhos o diabo informara que ali seria o novo reino. O delegado chamou mais uma vez a imprensa e provocou o roqueiro dizendo que sua propriedade não estava à venda. “Duas ruas a baixo” o que será que significava aquilo, pensava o delegado na penumbra do seu quarto, a mulher entediada pela segunda vez que ele brochava no intervalo de três dias, fumava, suava com medo de ser surpreendido por um grupo de loucos com fuzis e metralhadoras, se levantava e enchia o copo de whisky, olhava pela janela do segundo andar, a rua estava deserta com o céu sem estrelas, vinha chuva a qualquer momento. Tomava mais um gole e não conseguia se livrar do pensamento, viu um raio clarear ao norte e o vento forte varrer folhas de papéis no meio da rua. E não se conformava, lembrava dos casos mais difíceis da sua carreira que fora desmontando peças e checando pistas, até a elucidação cabal. O mais importante que considerava foi o seqüestro da Gerente do Banco Central Aydá Claimont Vieira de Bragança, parente distante dos Monarcas que colonizaram o Brasil, nenhuma pista, sem digitais. Apenas com um senso aguçadissimo de percepção descobrira que a saída havia sido pelo teto do banco e com uma corda chegaram a um quintal vizinho, no quintal havia um jardim que no seu interior escondia uma passagem secreta, um túnel de dois quilômetros que fora usado no transporte de ouro. O local em que se encontrava o banco havia sido uma mineradora. Enfim com livros de histórias e um mapa do ano de 1880 o caso estava encerrado a bancaria hoje é a mãe dos seus filhos. “Caramba, mas é isto! Por que não pensei nisso antes?” Já era manhã e a chuva ainda persistia fina, não havia dormido, bebeu, fumou e pensou no caso. Desceu imediatamente com uma longa capa e um chapéu preto, revolver na cinta, poucas pessoas na rua, algumas fotografando o muro, um repórter queria entrevista, ele não parou, andou duas ruas a baixo e na esquina um grande bar com pessoas jogando sinuca e outras bebendo com mulheres de roupas curtas e maquiagens borradas, na placa luminosa “Bar e Boite Duas ruas a baixo”.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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