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Coluna – A morte como uma dádiva

A experiência ensina ao homem que a morte segue a vida nos mesmos moldes em que a sombra acompanha o corpo e a noite acolita o dia. Foi inspirado em referida assertiva que, talvez, Fernando Pessoa tenha afirmado que “o homem é um cadáver adiado”. Todos, assim, somos finitos e, não sem dor, um dia certamente iremos morrer.

É realmente angustiante a perda de um ente querido. Mas a morte, caro leitor, deve ser vista como um acontecimento ruim? Em algum momento errou o Criador de todas as criaturas? Acredito, com todas as forças de minha alma, que absolutamente não. Amo a vida, que fique claro! Entretanto, em minhas perorações debaixo do sol, tenho observado a morte como a mais sublime, mais relevante e sábia de todas as criações Divinas. Não foi senão por essa razão que em Confissões, clássico da teologia cristã, Santo Agostinho afirmava que “Deus não é o autor do mal, porque é o autor de todo bem… vi, pois, e pareceu-me evidente, que criastes boas todas as coisas… em absoluto, o mal não existe nem para vós nem para as vossas criaturas”.

Todavia, o homem, diuturnamente, tem se desviado dos propósitos humanitários. Não se observam mais valores éticos de quaisquer ordens. O capitalismo e sua busca insana por bens materiais, por uma suposta qualidade de vida inatingível, tem feito com que nações subjuguem populações indefesas em prol de ideais completamente reprováveis. As civilizações ocidentais, ditas mais evoluídas, tantas vezes na história, ceifaram a vida de milhões de inocentes. Observem os miseráveis da África subsaariana. Vejam a desgraça em que foram premidos milhões de habitantes do oriente médio. Bombas caem, continuadamente, sobre seus lares, matando pais, irmãos e filhos. Isso sem falar na violência que afeta a vida de todos nós, incontáveis vezes, sem qualquer propósito.

Pai mata filho, filho mata pai. Pestes se proliferam. Guerras, enchentes e terremotos afligem os povos. Drogas, aids, gripe suína, peste negra, ebola. O calor no inverno, o frio no verão. Falta água, sobra fogo, nasce a morte… O mundo parece se encontrar de ponta-cabeça. O homem quer ser Deus! Não basta ser criado à sua imagem e semelhança!

É bíblico: “Bem-aventurados os mortos”. Está lá no livro das revelações. Mas nem mesmo a certeza da morte tem reduzido a maldade e ganância dos seres humanos. E se fossemos eternos? Quanta tristeza teríamos! Não sem razão, Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, dizia que “a ciência, se fôssemos eternos, num transporte de desespero inventaria a morte”. A limitação que deflui do passamento nos torna melhores, mais generosos! Percebam que, na iminência do fim, o homem é capaz de tomar atitudes sublimes, extremamente benevolentes. Não raras vezes, única de toda uma existência. O fim é necessário!

Por outro lado, tenho observado que o que mais nos apavora é o temor, ora da dor, ora da incerteza. Ninguém, por mais sábio que seja, conseguiu ultrapassar desta para outra dimensão, ainda desconhecida, e regressar. O caminho é de mão única. Só se vai. De lá não se vem. Até procedimentos médicos foram criados para justificar uma morte indolor, supostamente abreviando o sofrimento dos seres humanos. Refiro-me aqui, por exemplo, à eutanásia e à ortotanásia. Quanta limitação!

Para sintetizar a ideia central do texto, nunca é demais rememorar Chico Xavier, em Nosso Lar, “a vida não cessa e a morte é um jogo escuro de ilusões. Fechar os olhos do corpo não decide os nossos destinos. É preciso navegar no próprio drama ou na própria comédia… Uma existência é um ato, um corpo, uma veste, um século, um dia. E a morte… A morte é um sopro renovador. Mas não vou sofrer com a ideia da eternidade, é sempre tempo de recomeçar!”

Por Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia

Dr. Marcelo Freitas
Dr. Marcelo Freitas
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