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Coluna – Reflexões em cadeia

Os olhos partem em direção à porta, atravessam a soleira e ganham o clarão do dia. A luz forte da manhã expressa o vigor da vida, abrindo sorrisos e perspectivas nos inquietos que vão e vêm, como formigas na sina sagrada de sobrevivência. Buzinas emitem sons à distância. Às vezes, explosões soam como a guerra ali nas imediações, onde o mundo se encolhe e biparte. As nações, em metros quadrados  não encontram tempo para ouvir os últimos toques, passam sem bandeiras e sem fuzis e voltam no mesmo ritmo. Quem atirar primeiro terá de devorar sua vítima ou lança-la sobre as costas e carregá-la até que se decomponha ou os abutres que observam de cima desçam e a tomem para si. O universo, já diziam, é uma bola azul vista do espaço onde os anos luz escondem as estrelas perdidas, talvez aquelas que deixamos escapar quando a esperança foi diluída pelas fraquezas. É também uma cumbuca de mistérios que se emborca sobre aquilo que não podemos saber, mistérios que vieram antes do paleolítico, que ficaram em marcas estranhamente gigantescas aludindo a pássaros, macacos, colibris e outros mais. Também rodopiou nos campos de trigo e nas areias inóspitas do deserto ergueu-se triangularmente na esperança do regozijo eterno. Mas, às vezes, o mundo que se enxerga é enquadrado em retângulo e oprimido, desfigurando sua forma. Assim, o olhar retorna à inércia e cola manchas multicores nas paredes internas,  fazendo o choque paulatino do claro-escuro feito a caverna de Platão. É possível analisar toda a vida por um só dia, esta mágica necessidade que temos de sermos sofredores que lamentam o que passou, na ânsia de uma gota de oxigênio para livrar-nos da asfixia do tempo daquilo que não tem mais como voltar. Assim, parece que a corrente se altera e tudo corre exageradamente, a luz forte da manhã poética se perde atrás da nuvem cianótica e as horas passam, chegam a produzir furos na tentativa de raciocínio. Mas, no final, se convertem à lei do trajeto natural, aquela imutável que não se revoga, apenas se cumpre. Da tarde para a noite, aquela grande guerra vai se amofinando, os soldados vão ficando lentos e desaparecendo, suas cores sem vibrações apenas cintilam quando vermelhas, ou se aquecem sem perigo quando laranjas. Até que a noite cai definitivamente e o retângulo que moldurou o dia se escurece no interior, e, numa depressiva retração, demora para mostrar a lua redonda feito um olho de ciclope ictérico e fantasmagórico. Aqueles olhos que presenciaram o vigor da vida que nascia na manhã se contorcem, como se padecessem de cólicas oculares. Ligeiros, no epicentro do retângulo escutam os passos que quebram as folhas secas, a mente cansada tenta fugir do espectro, mas o terror acorrenta as reações e o coração começa a pular. Se esquecendo que não tem a independência de si próprio, quer sair pela boca e se esconder na caixa dos sonhos.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso

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