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Coluna – Na esquinha da loja Ramos

Esta era – e ainda deve ser – uma esquina bendita em Montes Claros. Rua Presidente Vargas com Rua Simeão Ribeiro, quarteirão fechado. Mas na década de 60, o quarteirão era aberto. Nessa esquina, a vida fervilhava em seus melhores tempos. Era uma passarela de moças bonitas e moços nem tanto – com exceção de uma meia dúzia de três ou quatro, eu incluso, claro.

Foto do arquivo de Maria das Dores Guimarães Gomes
Foto do arquivo de Maria das Dores Guimarães Gomes

Nessa esquina a juventude da época disputava assento na vitrine da Loja Ramos com a turma de Gerinha Português, integrada por Cici Santamaria, pai do amigo virtual “facebuquiano”, Ygor Santamaria; Fernando “Arrupiado”, Waltinho Fernandes, Saulo Wanderley (muito antes de se tornar o manda chuva da Cowan de hoje), Jabbur, filho mais novo do velho nem tão velho Jabbur, os irmãos Marco Antônio e Marco Aurélio Rocha, ex-colegas do ginásio da Escola Normal, naquele sobrado de portas mil, felizmente recuperado, entre outros.

A turma que eu, “essa figura descolorida”, expressão usual do já falecido amigo Fernando Gontijo, frequentava era composta por Cícero Stru, Cícero Cuecão, os irmãos Roberto e Ronaldo Lima, Rubens Sena Almeida, meu querido primo falecido; Daniel Ribeiro (de Jequitaí), entre outros. A turma que chegava primeiro ocupava aquele espaço e se divertia a valer com as mais variadas potocas, cada um de olho no balanço das “moiçolas” preferidas em tempo de romantismo exacerbado, e quando os flertes funcionavam como flechas que nós, os arqueiros disparávamos a torto e a direito, mas com pontaria certa.

A bem dizer, a preferência da turma de Gerinha Português era a porta da antiga loja de Jabbur porque geralmente ele e os agregados dele chegavam mais tarde. Nós, costumeiramente, lá chegávamos cedo, ali pelas sete da noite e eles depois das oito. Nós em riba das vitrines da loja Ramos e a turma de Gerinha sentada no piso de entrada da loja de Jabbur.

Gerinha, apesar da pequena estatura, era “fera” provocadora e dali do ponto dele, em encontros previamente marcados, eram tramados os mais ferinos embates com a turma de Gerinha Malandro, que comandava a turma dos Morrinhos, famoso pela habilidade de jogar capoeira.

A turma de Gerinha ficava de lá e nossa turma de cá, de vez em quando trocávamos algumas farpas, mas nenhum de nós nem deles ousava ir além das ameaças veladas mesmo porque conhecíamos uns aos outros. Na época, repórter iniciante do O Jornal de Montes Claros impunha certo respeito à turma e quando acontecia de o jornal denunciar as estripulias de Gerinha Português, ele ficava de lá com olhos de jacaré “corujando” a ninhada.

Naquela época a principal diversão, além da Praça de Esportes, era o cinema. E como era bom namorar no escurinho do cinema. No cine Fátima, na Rua Dom Pedro II, em frente à lanchonete Cambuí, de onde a moçada furtava chocolates, tínhamos lugares cativos. Ademir Fialho era um dos que mantinha rigorosamente o lugar com a namorada quem nem me recordo mais o nome, de cabelos loiros, uma graça.

Teve uma e outras vezes que circularam boatos de que haveria uma refrega entre a turma de Gerinha Português contra a turma de Gerinha Malandro, também chamado de Gerinha do Morro – soube recentemente que ele teria partido desta para outra melhor. Nunca presenciei nenhum desses embates, mas acabava tendo notícias nos dias seguintes por meio dos amigos e das notícias publicadas por Waldyr Senna Batista, que não deixava escapar nada. Gerinha ficava p. da vida quando via o seu nome no jornal.

Em verdade, em verdade posso dizer a todos que nunca troquei sequer uma palavra com Gerinha Português. Mas ele, com seu jeito de galinho garnisé, quando passava por mim se limitava a cumprimentar utilizando da expressão: “Olá, meu chapa”. Ficava nisso só. Havia respeito. Ou seria temor caso ele investisse correr o risco de ler, no dia seguinte, na página de polícia do jornal uma notícia desagradável?

Nem se eu fosse senhor das épocas não quereria barrar a voracidade dos tempos. Vivo com a maior alegria possível o hoje. O passado – por ser passado – passou. Construo no aqui, agora, o futuro. Mas gosto de vez em quando de incursionar pelas épocas vividas só mesmo com o intuito de contar histórias. Afinal, tudo isso é memória. E se essa esquina da loja Ramos falasse iria contar muito mais do que fiz nesses 4.276 caracteres de texto. Quem viveu concordará.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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