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Coluna – Viagens Intermináveis do Eu

Levante-se com paixão de vida… Bem cedo, para sentir o frio da aurora mastigar a madrugada. Arrepie com o hálito que vem do leste e sorva uma gota dos últimos orvalhos, respire bem fundo olhando em volta o silêncio que habita as horas. Deixe a fantasia despertar primeiro que os raios de sol veja cometas faiscando no infinito com seu rabos coloridos brincando de ir e vir. Esconda-se dos cavaleiros medievais que galopam pelas ruas em nome do rei tentando impor ordem aos notívagos que varam a noite cantando mágoas em poemas saudosos. Ouça o latido dos cães e se permita vagar pelas fantásticas invenções da mente, veja animais que naquele momento farejam o que olhos mortais não têm o dom de perceber. Deixe que estes cães ladrem a terrível figura esquelética com cheiro podre e capuz negro no crânio perfurado com uma estaca, suas roupas estão em farrapos, ela traz uma foice e diz através de urrados que é a morte, a morte intitulada de final da vida… Mas ela tem medo dos cães e não consegue sobrepor sua temerosidade, os cães podem se recriar e assim a humanidade se livrará eternamente da morte que não anuncia sua chegada, mas eternamente é por algum tempo. Todavia para que se entendam os caminhos desta eternidade é preciso saber que um dia a morte e os cães foram companheiros, e, tudo começou quando um caçador que morava além das colinas queria saber o que existia além da vida, sua casa era aconchegante e seu charuto soprava fumaça que ia até o céu, ele fumava as folhas dos galhos das suas plantas alucinógenas e tomava do Condor suas grandes asas por empréstimo, durante o transe ele voava alto, muito alto, lá de baixo seu cão observava aquilo e sentia vontade de ter asas. Um dia em latido pediu que o dono falasse ao Condor da sua intenção de voar, o Condor então mandou que ele primeiro fumasse das folhas daquele galho e depois se deitasse no cume da montanha mais alta, porém era noite de lua cheia e o Condor ficou extasiado com a beleza da noite e foi se ver dentro das águas ficou ainda mais enfeitiçado e se esqueceu que o cão dormia o sono da viagem no alto da montanha, quando uma fumaça que brotou do vapor das relvas, soprou-lhe as narinas ele despertou… Sem saber onde estava uivou para que seu dono o salvasse, mas a lua estava ainda mais cheia e ninguém ouvia nada além da sua própria voz que gritava enamorada no interior dos seus poemas de amor. A morte saindo então da sua caverna insalubre veio com asas de morcego e seduziu o cão paras as profundezas do seu reino, durante a viagem o cão sentiu-se mais poderoso e recebeu uma foice como presente da morte, ela sorria com hálito podre e olhava com seu olho cadavérico para o cão que latia feliz achando ter sido acolhido. Da lâmina da foice escorreu-se um elixir paralisante e tudo foi diferente daquilo que vivera até aquele dia. Segundo a lenda a morte não encosta-se a casa onde o cão ladra protegendo seus donos, o golpe da morte era fazer com que aquele cão chamasse todos os outros para o seu lado e assim ela seria a Rainha de toda a existência. E por longos e longos anos, todos os cães foram companheiros da morte, alguns a protegiam das orações e boas intenções, desta forma ela levou quase toda a terra, sacrificava crianças muito novas, pessoas cheias de calor da vida e os velhos caquéticos com suas respirações ofegantes. Mas aquele homem que morava além das colinas, jamais se esquecera do seu amigo cão. Certo dia quando chorava lágrima de saudades, a sombra da montanha teve pena do seu sofrimento e com informações de que a morte o procurava, revelou o que ouvira do Temporal. Assim ele se uniu ao Condor e as almas dos guerreiros que se libertaram da morte, fumou aquela folha e no maior dos transes foi acompanhado pelo Condor e todos os outros que sonham vivos. Levou consigo aprisionado no bolso um latido de felicidade do seu cão que com a morte era triste e malvado, ao vê-lo antes de ser atacado pela foice daquela que já se considerava a rainha, libertou aquele latido de amor e os cães acordaram do pesadelo, reconstruíram suas faces e a morte passou a ser vigiada pela grande Consciência que mora na amplidão do universo.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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