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Coluna – Apenas um homem

Coluna – Apenas um homem

Era o sonho de Damiano, ser o único homem de toda a extensão da terra. Dormia e acordava com a idéia faiscando na cabeça, como seria bom, pensava febril vendo todas as mulheres caídas aos seus pés, lindas, cheirosas e sedutoras. Asiáticas, Européias, Africanas, Latinas de todas as cores. Até as três décadas e meia não havia se casado por medo das algemas caseiras, queria ser de todas, entrar e sair de dentro delas sem compromisso algum.  Mas dizem que o nosso querer é infinito, somos capazes de fazer o impossível quando a vontade rege as forças ao redor, foi assim que naquele sábado com sua varinha dependurada no riacho assoviando uma cantiga de Tonico e Tinoco que um velho maltrapilho com cara de fome apareceu, não se sabe de onde.  Damiano era bom pescador e sempre levava a sexta recheada após a pesca, até àquela hora pescara Curimatãs e diversas Piabas, o velho não pedia com a boca, mas com os olhos desejavam algumas para um almoço, o pescador sem tirar o assovio dos beiços retirou uma sacola plástica das tralhas e deu-lhe uma boa porção de tudo aquilo que pescara, além de arroz e feijão cozidos com peles de porco. O Velho recebera com lágrimas minando no canto dos olhos, não sabia o que fazer para agradecer, abraçou-lhe e sumiu misteriosamente no meio do mato da mesma forma que chegara. No mesmo horário como sempre fazia quando o sol dava a entender que desceria para trás dos montes arrumara as coisas e pé na estrada, o bagageiro do Fusca 69 estava lotado. Na ultima encruzilhada antes da estrada para a cidade o velho estava parado com um embrulho na mão, queria agradecê-lo e mesmo contra a sua vontade recebera uma lâmpada e uma história junto, segundo o velho, era a lendária lâmpada do Aladim, aquele de bom coração que a possuísse, ao esfregá-la deveria aguardar alguns minutos até saída da fumaça, em seguida era aquilo relatado nos contos. Achando que o velho estava sob efeito de algum cipó alucinógeno, nada tivera a dizer, além de um tacanho obrigado, colocando o presente no banco do passageiro e deixando a poeira cobrir a imagem do homem que diminuía no retrovisor. Esticara o beiço iniciando novo solo de assovio, desta vez um pouporri de Leandro e Leonardo com participação especial de Milionário e José Rico. Acelerava e buzinava cumprimentando os passantes, no boteco a turma de sempre aguardava o tira-gosto e o violão já se encontrava em plena afinação, dali era beber até a madrugada chegar. As mulheres dos amigos chegavam banhadas de luz, cheirosas e cantantes, o olho não conseguia deixar de dar aquelas unhadas nas coxas de uma, ou a selvagem lambida no decote da outra, e vinha aquela idéia insana, se ele fosse o único homem do planeta, o bar seria governado por uma mulher, e todas aquelas mulheres estariam sozinhas apaixonadas pelo seu violão, sedentas pelo seu peixe, necessitadas por abraços e beijos. E vem mais uma cerveja a mulher do mecânico que também tem seu carro chegara feito cigana, o vestido florido e longo, mas um talho na perna que ia além do joelho, Damiano se derretia e se contorcia para cantar, comer, olhar para as mulheres disfarçadamente para não ser flagrado e ao mesmo tempo pensar tudo aquilo sem fundir a cuca alcoolizada. Não se sabe como, nem quem lhe deixara em casa, mas no domingo a ressaca lhe acordara disposto a ir ao clube do samba, seus amigos levavam sempre as mulheres e as deixavam soltas com seus biquínis pequenos, Mas se eu fosse sozinho neste mundo? Pensara com olhar possessivo nas imagens armazenadas na mente, quando se lembrara do presente do velho, mesmo totalmente céptico pegara a lâmpada poeirada e com a cueca limpa que vestiria iniciara a lustração do objeto, meticulosamente de um lado e do outro, nos cantos e por baixo, quando inesperadamente uma fumaça em torvelinho saiu com ruído de extintor de incêndio, boquiaberto encolhera-se no canto da cama vendo um homem forte de turbante na cabeça, colete laranja bordado e uma calça frouxa apertada a cordão. – As sua ordens meu amo! Você libertou-me e como manda o protocolo tem direito a três pedidos.

(Continua no sábado)

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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