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Coluna – Síndrome do Esquecimento das coisas ruins

A ultima coisa que pode acontecer na vida do cara é sua mulher contrair a “Síndrome do esquecimento do marido”. Foi verdade, na cidade de Porteirinha contavam o caso até meados do ano passado quando o próprio protagonista da história ameaçara processar todo mundo que recontasse o acontecido, “quem conta um conto aumenta um ponto” dissera ele ao Juiz que lhe dera ganho de causa, então aqui estou sujeito a ser processado, todavia com a certeza absoluta de estar contribuindo para o nosso folclore. Já disse que era Porteirinha, cidade do amigo escrevinhador Itamaury Teles. João Carapaça, grande produtor de algodão conhecido na capital mineira pelas festas regadas a pinga de Salinas e mulheres magras dos peitos grandes, que saia coletando de Curvelo até a Parada de Maquiné para celebrar a orgia em um hotel conterrâneo na Praça Sete. Usava terno branco e sorria com dentes de ouro brilhando, causava inveja nos homens que notavam o derretimento das mulheres pelo João, era casado no Civil e no Religioso, jurara amor eterno à esposa na saúde e na doença. Mas não conseguira cumprir com lealdade e a digníssima de pena que fora intitula como a mais bonita da região não era nem sombra de outrora. Cabelos presos em coque assimétrico, unhas sujas e tosquiadas nos dentes, olhos de choros ampliados em óculos de míopes amarrados com arame. Cada vez que via no jornal as peripécias do João, sentia vontade de se matar, dois filhos e uma filha foram os números de parições de Nalcy, assim como o pai só pensavam nas curtições diárias e na festa de amanhã na agitação de hoje. O corpo da morena jambo da bonita Monte Azul criava gorduras em baixo de vestidos longos e mal feitos. O marido gostava do que via, era álibi para dizer aos familiares que sua casa era nos bordeis por desgosto, não conseguia olhar para “A gata borralheira” sem ter um ataque de risos, os filhos pediam-na que se escondesse ao chegar os amigos da elite Gorutubana na mansão de Serranópolis. Até que um dia Nalcy caira de repente no meio da sala, assistia a novela Selva de Pedras com um prato de sopa nas mãos. Os filhos insensíveis gritaram para que o pai acudisse, mas ele estava no telefone encomendando um trator e não se importara com a cena, gritando a empregada que fizesse alguma coisa pois ele precisava sair. O medico da família notificara como quadro depressão alarmante, precisava de um internamento sugerindo algumas clinicas conceituadas da capital do Estado. Porém a ordem já estava dada e o motorista da ambulância desviara para a cidade de Barbacena, por ordem do senhor João carapaça ficaria internada por tempo indeterminado. Os portões cinzentos do manicômio se abriram, mas dentro da sua cabeça atormentada tudo estava fechado, até um inferno em que demônios tentavam mastigar seu cérebro doente não conseguia se mover da parte frontal do desespero. Pessoas conversavam perto com vozes distantes e seus corpos esguios davam impressão de garatujas sopradas aleatoriamente. O pudor fora invadido e sua roupa arrancada por sádicos que comentavam as gorduras do seu abdômen e os pêlos em demasia da sua genitália era motivo de alcunhas, uma mão ensaboava e ao mesmo tempo violentava sua porção pequena de dignidade psicótica, luzes mergulhavam garganta a baixo e um mar de frases desconexas gritava no seu interior. Uma voz dissera o nome do João, mas em total desrespeito aquilo que ainda era ela, falava de mulheres bonitas que passeavam pela cama dele, sugerindo que ela não existia. A água estava fria e uma sensação de queda invadira o seu corpo, o chão se afundava com ruídos histéricos e pedaços do cimento voavam chocando-se contra as paredes, os homens sumiram e as vozes continuavam em efeitos de microfonias, voltara a sentir as mãos invasivas beliscar os seus seios e pressionar sua barriga, e com um pouco mais de força um pum soltara-se de dentro dela como um inimigo que se libertara de uma terrível prisão, exalando seu cheiro podre, e continuara a cair sentindo que a luz de dentro da si apaga-se lentamente. (Continua)

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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