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Coluna – Escola Normal

As fotos do acervo de dona Maria das Dores Guimarães Gomes postadas no Facebook têm o condão de transportar qualquer pessoa, seja cristão, sacristão, evangélico ou budista, senão o ateu também, ao tempo em que fomos igualmente felizes e tínhamos a certeza de que éramos felizes.

Mirem-se nesta foto. É o pátio da Escola Normal Professor Plínio Ribeiro. Quem viveu os bons tempos de Montes Claros, já naquela época gloriosa, quando repisávamos os mesmos caminhos de muitos viventes sobreviventes da geração nascida na década de 50, vai se recordar de muitos acontecimentos ali vividos.

Montes Claros de então era uma cidade pacata, mas com a nítida vocação de ser o que é hoje, a capital duma região para onde convergia quase tudo do que vinha do Nordeste brasileiro. Uns iam para São Paulo e acabavam aportados na cidade e dela se tornavam tipos humanos.

Escola Normal. Por que escola normal se todas as escolas são normais? Anormais são as escolas que não cumprem rigorosamente o seu papel de escola normal, aquela em cujo ambiente existam profissionais que, apesar dos percalços se sentem no dever de transmitir o melhor que sabem para a formação de novos valores.

A Escola Normal era normalíssima. Claro, acontecia de vez em quando de ouvir estalidos vindos do telhado, mas não chegavam a assustar até que um dia… Um dia o telhado deu um estalido mais forte e mais alto e uma parte desabou quase na cabeça do professor Pedro Santana.

O ruído das passadas dos estudantes no piso de madeira do sobrado era comparável ao movimento do gado nos vagões de trem quando a Central do Brasil corria nos trilhos. Mas depois que soava o sinal, o silêncio tomava conta de tudo e só se ouvia mesmo a voz dos professores. Era um tempo de concentração e aprendizado.

Pedro Santana saía e vinha Francolino. Francolino saía e vinha dona Yvonne. Dona Yvonne saía e vinha Juvenal. Vinha dona Dulce Sarmento, vinha Simeão Ribeiro e depois Monsenhor Gustavo com o seu Latim. Era um encanto esse sobrado encantado, que mais encantado ficou depois de restaurado. Inda bem que este foi salvo. Imagina se no lugar da Escola Normal tivesse hoje uma oficina mecânica?!

Mas era mesmo no pátio onde o burburinho de fato acontecia e as rodas se formavam em conversas rápidas, porém corpo a corpo porque naquela época nem se vislumbrava algum sinal de informática. A escrita era na munheca e os professores gastavam mesmo o português até ficarem roucos. Como roucos também ficavam os alunos de tanto ouvir.

Havia uma casinha do lado direito de quem vê a foto onde era a cantina. A cantina vendia sanduíche, pão de queijo e o tradicional cafezinho. Às vezes, dependendo do despertar matinal, nem tempo de comer alguma coisa dava e era então que se tirava a barriga da miséria ali na cantina.

Mas nem sempre se podia fartar, porque estudante que se preza não tem dinheiro pra ficar esbanjando. Mas sempre havia alguém pra compartilhar a merenda. Um dia era um noutro dia era outro e assim a solidariedade era praticada em pequenas gotas e talvez por isso tenha sobrevivido ainda nos dias atuais.

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Gostoso mesmo, na hora do recreio, era a oportunidade de conversar com as colegas. E era cada colega. Uma coisa era vê-las de uniformes de saia azul e blusa branca. Mas nas oportunidades que tínhamos de encontrá-las devidamente maquiadas e de minissaia muito usada na época, era surpreendente.

Os estudantes da época, de fato eram politizados. Politicamente falando, eles reagiam por meio do Diretório Acadêmico. Pagávamos uma contribuição para isso. Houve uma vez, pouco depois do desabamento de parte do telhado, que paramos o carro do então governador Magalhães Pinto, em visita à cidade, ali na Praça da Matriz, e quase em coro, reivindicamos:

– Governador, nós queremos novo prédio para a Escola Normal.

O governador nos deu tempo suficiente para observarmos que de fato ele não tinha sequer um fio de cabelo na cabeça, sorriu e fez pra nós o sinal de positivo. Foi uma glória, saímos correndo pra contar aos outros a nossa peripécia.

Estudamos em quase todas as salas desse imponente sobrado que é cheio de histórias. Por ali passaram personalidades que muito ajudaram Montes Claros a ser a cidade que é hoje, dotada de uma Universidade Estadual, conhecida e reconhecida em todo o território nacional.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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