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Coluna – Xifópagos

– Vocês não se desgrudam, parecem xifópagos! – Quem? Nós dois? – Sim. O bar estava cheio, mesas bem servidas e o bilhar fazendo ganhadores. Os dois amigos cresceram juntos, moradores da mesma rua, conheceram duas irmãs e se amasiaram, foram morar vizinhos. Cometeram crime, juntos foram presos, um ano foi o tempo em que ninguém os vira por ali, naquele bar comemoravam a liberdade, pagavam a conta com o dinheiro dos serviços prestados na cadeia. Fizeram artesanato e ajudaram reformar as paredes. Agora ali diante de tantas pessoas foram chamados de xifópagos.  Quem hes nomeou daquilo foi o Professor Antunes conhecido de outros tempos, crescera também ali na vila, era querido. Mas não tinha o direito de dizer aquilo na frente de todos. Se olharam após o professor sair pela única porta do bar, o acompanharam atravessar a rua e perder-se no meio do transito. – Amigo sinto em dizer-lhe, mas de agora em diante devemos cortar nossa amizade, não quero ser chamado outra vez de Xifópago! – Concordo, estou com a reputação manchada, jamais imaginei que seria chamado assim, meu filho já está com oito anos de idade, não posso aceitar a desfeita! Assim os dois se levantaram para sair, mas se entreolharam e sentiram vergonha, alguém que estava com o taco para bater na bola impar olhou sorrindo, eles se sentaram, apenas um se levantou e pagou sua parte da conta. A amizade estava corrompida partir dali, não queria ser chamados de xifópagos. Saiu remoendo, cada pessoa que passava parecia estar repetindo aquela palavra. Aquele que ficou na mesa também se maldizia, virou um copo em apenas um gole, pediu mais pinga, tomou mais cerveja e sentia o fogo subir inflamando a face, o balconista queria lhe dizer alguma coisa, seu desgosto era grande, nunca foi e jamais seria um xifópago. Levantou-se brutalmente para quitar a conta, não se despediu de ninguém, o ódio ardia no peito e ao passar da soleira da única, porta lagrimas pingaram no bico do sapato. – Vou matar aquele desgraçado, xifópago é a puta que pariu! Em casa o outro não falava nada, a mulher queria saber que bicho o mordera, estava estranho, não queria brincadeira com o filho chutou o cachorro que veio com a bolinha azul querendo atenção. – Aquele miserável deve morrer, volto para a prisão, mas a coisa não fica assim! O Professor dava aula na Escola Estadual, no momento lia um texto retirado do Livro; Sargento Getulio de João Ubaldo Ribeiro, a classe estava em silêncio prestando atenção. Os dois chegaram juntos, cada um tinha sua arma branca e sua vingança a cumprir. O porteiro que não tinha reserva precisou ir ao banheiro, justo no instante em que chegaram, andaram por cada corredor mastigando o desejo de sangue, não se olhavam desunidos cada qual no seu lado do corredor, batiam nas portas que estavam fechadas e cuspiam nas paredes, o porteiro ao voltar soube da invasão, todavia estava com uma mensagem para ler no celular e se achava desvalorizado com salário pequeno, não era pago para colocar gente para fora da escola. A diretora que ia fumar no pátio, esbarrou em um deles e notou que estava armado, nem se atreveu a perguntar aonde iriam muito menos se apresentaria como autoridade máxima dali, trancou-se no banheiro e ligou para a policia que chegou com poucos minutos, alguns cercaram outros entraram e conseguiram deter os homens antes de acharem a sala do professor, os dois tinham escumas nas bocas e facas nas cinturas. Alunos que vadiavam no pátio viram e espalharam para os outros que deixaram as salas para acompanhar o caso, o professor também chegou a tempo de vê-los antes de saírem algemados na viatura, e comentou que há poucas horas os viram em um bar, e brincou chamando-os de irmãos siameses. Ao ouvirem aquilo um deles disse baixinho; “Desgraçado mentiroso, nos chamou de xifópago agora perto da policia diz que foi de irmãos, mas um dia a gente sai da cadeia!”

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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