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Coluna – Pólvora para a revolução de 30

Desde criança se ouvia dizer sobre este incidente ocorrido em Montes Claros, que teria contribuído para pôr mais fogo no rastilho de pólvora da chamada Revolução de 30, incidente esse protagonizado por Dona Tiburtina, mulher do dr. João Alves, que dá nome à praça em frente à Escola Estadual Gonçalves Chaves.

revode301Foi tempos depois que se soube do que havia de fato acontecido ali. A comitiva na estação esperava o vice-presidente da República, o mineiro Mello Vianna. Mas a oposição tentou assassiná-lo neste dia. Segundo dizem o trem que transportava o vice-presidente voltou de ré até Bocaiúva para evitar o assassinato.

Ouvindo os adultos em roda de conversa, eles diziam que da noite para o dia foram encontrados vários cadáveres na praça. Mas tudo era contado à boca pequena. Os adultos pareciam ter receio de falar sobre o assunto. Diziam que em Montes Claros dessa época era comum encontrar gente assassinada e o cadáver abandonado no meio da rua.

Mas o tempo voou nas asas dos anos e Montes Claros passou um grande período como cidade pacata, até que, impulsionada pelo movimento característico da sua posição geográfica no mapa brasileiro, a urbe explodiu como previu anos depois de Tiburtina, década de 70, o jornalista Fialho Pacheco. Infelizmente, já faz alguns anos, os assassinatos voltaram não com a conotação política de então, mas com a força da turbulência dos nossos dias.

Observando a foto enviada por Joaquim de Paula ao acervo de fotografias de Dona Maria das Dores Guimarães Gomes, nem de longe lembra a Montes Claros de hoje. Reparem a elegância das pessoas. Veja que o costume da época era usar chapéu. Todos os homens de terno, colete e gravata. As mulheres com roupas chiques, como era costume dizer à época, “roupa de ver Deus”. Hoje, o costume é usar boné. Boné com a aba pra frente ou pra trás. Quem deixa o boné com a aba pra frente é um tipo e outro é o que deixa a aba do boné pra trás.

Enquanto os adultos falavam a respeito dos tempos em que a política dos coronéis era acirrada, em Montes Claros, com dona Tiburtina e, depois, Deba, que comandava os pleitos locais, crescia na imaginação infantil uma série de imagens. Qual devia ser naquele tempo a sensação de abrir a porta ou a janela da casa e encontrar na rua cadáveres insepultos? Ficava pensando que o mau cheiro devia ser enorme e que os urubus tratavam de consumir com os restos mortais.

Como soe acontece com a raça humana, muitas das vezes as aparências enganam. Olhando com acuidade a foto, a impressão é a de que tudo ali está em ordem. As pessoas bonitas, elegantemente vestidas, aguardam a chegada de alguém que certamente daria mais impressão ainda de normalidade à vida.

Será que em meio a essas pessoas que aguardavam na estação o vice-presidente da República, o mineiro Mello Vianna, imaginavam o que estava preste a acontecer? Pode ser que sim ou não, dependendo da capacidade de cada um para captar as energias envolventes da atmosfera socioeconômica e política daquela época.

Hoje a estação onde essas pessoas aguardavam os acontecimentos já não mais existe. Como não mais existe o trem de passageiros que vinha de Salvador, na Bahia, atravessava o Jequitinhonha e adentrava Montes Claros rumo a Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Era um trem demorado que saía pingando pela estrada de ferro afora, mas era um trem importante, se ainda corresse seria uma mão na roda para desafogar as perigosas rodovias desta parte Leste do País.

Foi o “presidente estradeiro”, Juscelino Kubitschek quem determinou o fim do trem de passageiros ao investir pesado a fim de trazer para o Brasil a indústria automobilística norte-americana.

Não só a indústria automobilística veio no bojo dessa iniciativa que hoje vivemos e nos faz parecer, pelo menos nas grandes cidades, réplica do modus vivendi norte-americano, como bem disse o escritor italiano Luigi Pirandello, ao então repórter Assis Chateaubriand: “Cheguei do Brasil há pouco tempo e foi uma pena constatar, vocês imitam os norte-americanos com os arranha-céus”.

A importância das fotos, dos filmes e o que mais possa marcar épocas é de grande valia para assegurar a saúde da memória de cada um e coletiva, hoje em dia. Se naquela época quando Dona Tiburtina imperava, se tivéssemos uma reportagem contando tim tim por tim tudo que se deu naquela fatídico dia, poderia ser que a história contada fosse outra.

Por Alberto Sena

Alberto Sena
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