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Coluna – Amanhã será outro dia

Coluna – Amanhã será outro dia

Rita era só a neguinha de cabelos encaracolados que fazia os serviços gerais da casa de Marcos. Um corpinho esbelto com seios pequenos e pontiagudos que levava ao delírio ele e os amigos que a espiavam por uma câmera instalada no quarto dela. Marcos sabia que a “empregadinha” nutria amores platônicos por ele e se aproveitava daquilo com verdadeiras sessões de vilipêndios, mostrava que era o dono do corpo dela, nas conversas de turma descrevia em pormenores suas intimidades, com galhofas repetia as palavras apaixonadas daquela criatura. Cada um daqueles mais próximos dele tinha um vídeo de Rita em situações eróticas, fotos eram compartilhadas a revelia e ela baixava a cabeça com o coração apertado e o orgulho sangrando, mas fazer o quê? Se apaixonar pelo patrão galã já era um prêmio na sua simplicidade afetiva. Mesmo assim os pais do rapaz decidiram julgá-la como culpada pelo erotismo perverso dele e não adiantaram lágrimas nem pedidos em nome de Deus, Ritinha estava na rua. Só e desamparada com seus dezesseis anos, longe vários quilômetros do pedaço de chão árido onde moravam os pais que entregavam os filhos ao primeiro que chegasse para protegê-los da fome. Por diversos dias e noites ela perambulou com o pouco que tinha nas mãos e na dignidade até se descuidar na travessia de uma rua e ser atropelada, seu corpo que já era frágil deixou sair boa parte do sangue e uma violenta convulsão se fez dentro de si, ruídos de buzinas, apitos, gritos e a voz de alguém dizendo: “Parece que está viva!” De repente a voz desapareceu e um lindo gramado estava a seus pés, que pisavam suavemente seguindo uma revoada de borboletas na trilha que acabava em um rio, garças alvas brincavam com vôos rasantes e peixes saltitavam convidando-a para brincar. Não havia percebido, mas ao seu lado havia “pés de arvores” onde os frutos incrivelmente eram de Baurús, seu sanduíche preferido, não muito longe dali, lindos “pés de Ketchup” desabrochando vermelho, tudo que sonhara a vida toda de privações. E comeu, comeu tanto que adormeceu lambendo os beiços, acordou em um quarto de hospital com pessoas desconhecidas de olhos imensos sobre ela, apenas observaram e saíram. Restou um velho de camisa branca de mangas compridas olhando no relógio de pulso que com a parte posterior da mão tocou sua testa pálida e informou que havia passado por cirurgia após ser atropelada por ele. Rita decepcionada por perder os “pés de frutos” que sempre desejara , reparou todo o ambiente sem respostar ao velho que seguiu falando. Disse-lhe que perdera o único filho para as drogas, naquele momento vinha do cemitério com intenção de dar cabo da própria vida, mas Deus deu-lhe nova oportunidade com aquele desastre. A menina ainda receosa foi vagarosamente contando tudo e no final da tarde após longas horas de confiança confessava seu martírio na casa dos patrões.  O velho sentindo-se feliz mostrou a ela fotos internas de uma indústria de beneficiamento de arroz, aproximadamente cinco mil funcionários trabalhavam para manter metade da Europa abastecida de frangos e ele era o proprietário de tudo. Uma semana depois e Rita estava em um quarto confortável com uma televisão no tamanho daquela dos antigos patrões e empregados que a cuidavam como rainha, e no passar dos tempos Rita foi se modificando, linda negra de olhos castanhos, corpo esculpido pela natureza e tratado com os melhores cosméticos, no seu aniversário de dezenove anos além do carro prometido ganhara a copia do testamento onde seu nome aparecia como herdeira do milionário. Nas páginas das revistas sociais a acadêmica de Medicina da USP aparecia contando sua história e mostrando projetos de saúde para melhorar a vida da população. E o tempo se passou com alegrias e realizações, passou como um perfume de flor soprado pelo vento causando bem estar. E certo dia numa clinica coordenada pelo Medica Infectologista Rita Albuquerque chegam três pessoas que marcaram com sigilo aquela consulta, um casal de idosos acompanhava um jovem de aproximadamente trinta anos, que aguardava resultado de um teste de HIV. Passaram rápido e com desdém pela Secretária que anunciou a chegada, o rosto jovial da medica trazia um brilho especial de mais uma conquista, viajaria para a Grécia em Congresso Internacional de pesquisadores sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis. Ao ver o trio adentrar com nervosismo aparente seu coração saltou, bateu na garganta e por pouco não sai pela boca, tentou disfarçar, mas não conseguiu, suspirou deixando seus olhos passearem por cada centímetro dos rostos daqueles seres que tanta desgraça lhe causara na vida. Os antigos patrões e o filho Marcos, que nem de longe lembrava o robusto e mulherengo rapaz, eles também a reconheceram de imediato e com sorrisos quase que ensaiados se entreolharam e Marcos a chamou pelo nome de Ritinha. Crua como rocha a medica foi direto ao assunto, ignorando mortalmente aquela hipócrita aproximação, dizendo sem rodeios que infelizmente o exame havia sido positivo. Encaminhando maquinalmente para internação em hospital especializado, o choro de Marcos lhe soava pretérito, vingança, a lei do retorno, o choro dela sob os risos dele e dos amigos. Da janela do terceiro andar olhou para a rua observando as três figuras desconectadas da razão se arrastar deprimidas em baixo de uma chuva fina, um céu tenebroso e um medo terrível da morte gritava dentro de Marcos, assim ela imaginava, não tirou os olhos deles até que um trovão raivoso anunciou que viriam raios.  Ela fechou a janela.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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