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Coluna – Um crime e duas linhas

Coluna – Um crime e duas linhas

Seu nome era Bastilha, tinha muita vontade de viajar para conhecer o Rio de Janeiro, tinha vontade de ter uma motoneta Biz e arranjar um emprego no Shopping Center para usar aquela blusa branca com a calça vermelha, feito a loura que subia no ônibus com os cabelos escovados cheirando a perfume. O nome Bastilha parece que foi  homenagem de um  tio que gostava de história e era fã da Revolução Francesa, queria muito ter um filho para dar-lhe um nome que tivesse a ver com aquele período, se fosse homem chamaria Danton, mulher seria Bastilha. Mas um dia envolveu-se com uma mulher casada e precisou sair às pressas, fugiu  para São Paulo sem deixar endereço, dizem que nem as cuecas pôde levar. Então a irmã que poucos dias depois soubera que estava grávida lembrou-se dele quando Bastilha Hermelinda Aparecida de Jesus nascera  com 02 quilos e 200 gramas em um hospital do SUS. A mãe de Bastilha, tampouco o pai eram amigos da leitura, nunca leram um livro na vida, analfabetos funcionais não  sabiam que raios fôra Clarice Lispector, mas Bastilha parecia ter saído das páginas de “À hora da estrela” era Macabéa e não sabia. Era faxineira, limpava o chão da radio local, mas mentia dizendo que era secretária, tinha inveja da moça que atendia ao telefone com  voz rouca dizendo: “Bom dia aqui é a radio FM 114,6 em que posso ser útil?”, mas sua voz era desarticulada e desarmônica, mesmo assim sonhava. Porém  muito mais que ser secretária ela queria ser locutora, apresentar as noticias dos jornais e saber que milhares de pessoas estariam ouvindo sua voz. Especialmente  Pablo Fernandes da loja de materiais de construção que  não perdia um programa, Bastilha o queria apaixonadamente e buscava maneiras para dizer-lhe que seria a próxima apresentadora do jornal, mas era como se ele não percebesse  o seu existir, parecia um ser fantasmagórico  entrando na loja procurando torneiras, lixas e até coisas impossíveis de se achar  ali, mas nem assim ele desviava os olhos do jornal ou os ouvidos do radio, aliás, da rádio onde ela fantasiava o cargo de secretária e de locutora. Certo dia descobrira que o rapaz tinha aquele espírito sorumbático devido a sua posição de gerência, só falava com algum freguês quando era extremamente necessário, mas de vez em quando ligava pessoalmente para a rádio informando sobre algo ou querendo saber noticias. Bastilha então passou a ficar próxima da secretária ouvindo o telefone tocar e os nomes dos ouvintes que ligavam, até que um desses dias Pablo ligaria com segundas intenções com a secretária, via que atendente repetira o nome do ouvinte e do comércio, destacando o cargo de gerente de vendas. Ela sorria e corava provavelmente ouvindo galanteios, Bastilha se mordia de ciúmes e passava o rodo cada vez mais próximo e por ali ficou até que o  encontro foi marcado. Bar das Gêmeas sábado às 20 horas. A secretária iria de vestido longo azul. Mas antes uma carta anônima fôra deixada em baixo da porta da Loja de Materiais de Construção, mudando o endereço do encontro para a Praça dos Eucaliptos no mesmo dia ás 18 horas. Isto era sexta-feira e durante o dia Bastilha não tirava os ouvidos da secretária que confidenciara estar ansiosa para um encontro com um belo e rico gerente de loja, já havia levantado todas as informações sobre ele, inclusive passado disfarçadamente em frente ao trabalho  e certificado quem era. Bastilha se doía por dentro, mas ao mesmo tempo sorria imaginando a cara da verdadeira secretária sozinha no bar, pedindo ao garçom que  esperasse  um pouco mais  até que seu par chegasse. Ela linda com um vestido longo azul, estaria em beijos e quem sabe em outras intimidades.  No domingo às 07 horas da manhã, o primeiro jornal do dia na rádio 114,6 FM se iniciava  com o locutor de voz embargada, anunciando que acabara de ser preso o senhor Pablo Fernandes de Vieira e Souza que confessou ter assassinado na noite anterior  a secretaria daquela  rádio, segundo ele os motivos do crime deveu-se a falta de respeito da atendente com seus pedidos musicais, alegando que por ter um gosto musical diferente ela o desdenhava, a policia adiantou recebera informações de que o homem era portador de esquizofrenia e tinha mania de perseguição.  “Mas  há um mistério em torno do crime, uma vez que a morta não foi à secretária e sim a faxineira” fechou o delegado.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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